PERCIVAL DE SOUZA
TIROS, OÁSIS, MIRAGEM
É absolutamente normal a família do presidente da República ter direito a segurança. Não é normal, porém, essa segurança ser amadora. Se o Exército sempre diz que não é sua missão executar funções de policiamento, vive uma contradição prática. É hora de rever conceitos.
Um subtenente da Força terrestre pagou com a vida a ousadia avassaladora dos bandidos nos centros urbanos, contra a qual nenhuma autoridade parece preocupar-se como deveria. Um cabo também foi atingido. Lamento profundamente a perda da vida e as lesões. Como lamento, também, registrar que eram dois militares contra dois bandidos e ao ver o companheiro ferido o cabo saiu correndo, foi alcançado e ferido. Também lamento contar que os dois bandidos abordaram os seguranças armados e passivos e um deles perguntou: Vocês também são ladrões?.
Escolta, segurança, observação, vigilância, postura, ação, reação, legítima defesa própria e de terceiros. São posturas de profissionais. Não se pode improvisar nesse trabalho. Como não se pode brincar, como se brinca tanto, com os rumos da segurança pública em nosso País.
O caso adquiriu contornos dramáticos porque a vítima potencial, em tese, poderia ser um dos filhos do presidente. Entretanto, é oportuno lembrar que vidas são ceifadas, no cotidiano, por esse tipo de bandido. Sim, temos os excluídos da vida, é certo, mas também temos o criminoso que atira primeiro para ver o que subtrai depois. Ninguém sabe de onde vem o tiro, canta Herbert Viana. Essas tragédias ficam em quase anonimato e nem sempre são, sequer, consideradas notícia. Certo, ainda, que palpiteiros de plantão criticam a divulgação dos fatos, confundindo como sempre a paisagem com a moldura. É triste. Como foi triste tentar uma resposta rápida, como deveria acontecer sempre em casos graves, com prisão a jato de suspeitos sobre os quais não havia sequer a mínima condição de detenção para averiguações. Isso tudo, sob a complacência de todos, autoridades inclusive, significa que as regras do jogo precisam ser violadas quando o drama é para valer e precisa ser resolvido. A burocracia de sempre fica reservada para os sem direito a voz. É deprimente.
Como já escreveu George Orwell, para explicar a nossa sociedade dividida, alguns são mais iguais do que os outros. Na hora de se debruçar sobre o problema concreto insistimos em teorizar. Assim é que amanhã começa na Câmara Federal uma semana de segurança, quando alguns projetos de lei serão finalmente votados. Não acredito no filme. Porque, nesse caso específico, já estive em evento semelhante, na mesma Câmara, e na condição de representante da sociedade civil falei tudo o que achei que tinha de falar. Simplesmente nada mudou, e não é mais por falta de diagnóstico. Essa experiência frustrante nos faz lembrar da lição filosófica de Platão: O castigo dos homens capazes que se recusam a tomar parte das questões fundamentais é viver sob o regime dos homens incapazes. Afinal, o que está acontecendo? Saímos de um regime autoritário, certos de que o oásis estava perto. Encontramos miragem.





