Enquanto as chamas da violência fazem crepitar, o País viveu dias de celeuma depois que o presidente Lula mencionou em discurso contra o crime organizado a necessidade de abrir-se o que ele chamou de ''caixa preta'' do Judiciário. Parecia caixa de marimbondos flamejantes. As reações, emocionadas, foram de apoio e crítica, aceitação e rejeição.
Vamos tratar aqui do que interessa à população. Sartre disse que é preciso escrever romance com palavras e não com idéias. Depreende-se que, adaptando a frase do filósofo francês para a realidade brasileira, é preciso saber expressar as idéias. Em terras paranaenses, o governador Requião, que também é secretário da Segurança Pública, deu 18 cartões vermelhos para policiais, neste ano, e 354 amarelos isto é, instaurou 354 processos disciplinares. É significativo e inédito esse acúmulo de funções nada a ver com Garotinho-marido tornar-se secretário de Rosinha-esposa no Rio de Janeiro. Sem entrar no mérito da questão, fica expressa a vontade de interferir com vigor numa das peças vitais da máquina do Estado. O filósofo Michel Foucault já nos ensinou que nas instituições sociais existem mecanismos que tanto podem conformar as pessoas como dominá-las. Uma espécie de rede de micropoderes, diria José Arthur Gianotti, professor de filosofia na USP.
Vamos ao ponto: caixa preta, pelo que sei, é aquela que contém os registros de vôo e são fundamentais para esclarecer causas de acidentes. Em política, onde a metáfora seria interessante, adquiriu um caráter ofensivo. Se fosse a caixa de Pandora, poderíamos imaginar que dali saíssem os males do mundo. Mas não é o caso. Importa, aqui, destacar que as instituições existem para servir a população e o poder é outorgado para representá-la. Obviamente, não se pode olhar só para as exceções. Se Lula tivesse dito que ''reforma do Judiciário'' é fundamental, não teria havido tanta grita. Todos estão de acordo.
CAIXAS FECHADAS

Transformar o assunto em queda de braço não serve à população, que alimenta sonhos com nomes não jurídicos. Ou seja: deseja que os mecanismos funcionem, que os cidadãos corretos sejam prestigiados, que os transgressores das normas de convívio social punidos e assim por diante. É óbvio que não se trata de querer demais, como também é evidente que a sociedade, que paga a conta de todos, está insatisfeita e frustrada. Até pelo andar da carruagem, com novas cenas de fisiologismo explícito e pedidos de mais tempo para concretização dos sonhos (Lula diz que quem tem pressa ''come cru''), fica difícil entender esse quadro.
Ninguém quer se ver no epicentro de problemas. A rigor, falamos disso nos encontros entre amigos, ou nos intervalos dos congressos, seminários e simpósios (cá entre nós, são esses os melhores momentos). Mas, como Sartre, criamos o impasse entre o que pensamos e o que dizemos. Então, quem sabe, a receita seja dizer o que se pensa porque o que se diz é muito bem pensado.

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