Cabeças assassinas

Suzane von Richthofen, 19 anos, que arquitetou o assassinato dos pais, crime executado pelo namorado e o irmão dele, continua provocando perplexidades. A pergunta continua martelando, insistente: por que? Em passado não muito distante, esse tipo de crime o parricídio era imediatamente catalogado como sintoma evidente de distúrbio mental, a incapacidade de se autodeterminar que gera os inimputáveis, que não podem ser condenados, com penas a serem cumpridas, mas internadas para tratamento psiquiátrico até que sejam eliminados todos os vestígios de periculosidade. Já foi pena e tratamento. Faz tempo que tem de ser uma coisa ou outra, pena ou tratamento. Há muitos casos semelhantes. Michel Foucault escreveu uma obra sobre Jean Pierre, que não poupou ninguém da família, à semelhança de muitos casos brasileiros. Pode ser até, diz uma corrente psiquiátrica, uma deformidade de caráter de ordem genética.

Na criminalidade contemporânea, vemos os casos de assassinato sobre ascendentes praticados com frieza e planejamento. O conteúdo da exaustiva apuração da execução brutal do casal Richthofen em São Paulo mostrou a filha impassiva ao final da reconstituição (''acabou''?) e os irmãos Cravinhos, Daniel e Cristian, lamentando apenas o crime que pretendiam ser perfeito ter sido descoberto, fazendo ruir os futuros planos milionários. Nada mais.

Certas perguntas jamais serão respondidas no processo criminal, cuja preocupação fundamental é apurar e provar autoria. Na prisão, serão realizados exames criminológicos. Policiais e promotores que participaram da investigação sabem que não existe muito a acrescentar, embora seja importante indagar mais e mais sobre causa e fatores. É medíocre demais, mas interessava o dinheiro, a herança, e a eliminação sumária de dois obstáculos humanos, simulando um latrocínio. E isto só pode ser interpretado fora dos autos. Fala-se nas relações com os filhos, na educação moderna, omite-se que hoje muitos pais estão com medo. Infelizmente, é o crime acompanhando o ser humano como a sombra segue o corpo. Jack, o Estripador, ficou famoso retalhando mulheres na austera Inglaterra vitoriana. O bandido conhecido como M., o vampiro, apreciava atacar meninas nas ruas de Dussendorf, sob o pouco permissivo regime nazista. Poderíamos dizer, levando-se tudo isso em conta, que a periculosidade é um estado biológico com repercussões legais, com origem na essência psico-social do próprio indivíduo, que possui singulares peculiaridades para infringir a lei penal e as normas sociais ao longo de sua existência.

Talvez a ''Cidade de Deus'', não o filme mas a obra de Santo Agostinho, nos ajude a entender melhor. Segundo o teólogo, nessa cidade o Criador seria tão amado que as pessoas teriam esquecido de si mesmas. Na cidade ao contrário, as pessoas pensam tanto em si que não se lembram mais de Deus e sim do consumo, o hedonismo, a diversão. São capazes de tudo, e matar se torna apenas mais um detalhe. É por aí.

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