Parece até que continuamos colonizados. Só porque o respeitável jornal ‘‘New York Times’’ publicou que São Paulo se transformou em capital do sequestro, ganhando nessa modalidade de crime da colombiana Bogotá, surgiram reações bem curiosas a respeito.
Não existe novidade na reportagem do Times. Bobagem bancar o falso patriota, reagindo com indignação do tipo ‘‘estão falando mal de nós’’. A imprensa é como uma janela. Mostra a paisagem, mas não pode mudá-la e nem construir cenários ou realidades. Mostra fatos. Não os produz. Elementar, não? Vamos ao que nos interessa.
Há um detalhe, porém, nessa reportagem. Aquele que nos pode encher de horror e indignação, apresentando um cirurgião plástico, Juarez Avelar, especialista em reconstrução de orelhas. Isso quer dizer que o médico atendeu a várias pessoas mutiladas em cativeiros por seus sequestradores. Além dos traumas psicológicos e psíquicos, a parte física também atingida brutalmente. Esta foi a grande novidade na matéria do Times. Aliás, no mesmo dia em que ela foi publicada, bandidos atacaram um comerciante na cidade de Sumaré, próxima a Campinas, e armados com um facão de cortar cana deceparam-lhe as mãos. Outra bobagem é rotular todo mundo que age assim de coitadinho, vítima da má distribuição de renda ou coisas assim. Se existem as vítimas das terríveis desigualdades sociais também não são obras de ficção as criaturas que na busca do dinheiro fácil não hesitam em atacar, mutilar, trucidar, espancar, matar.
Se, como diz o especialista em segurança José Vicente da Silva, ‘‘não podemos confrontar o crime do século 21 com um aparato policial baseado em pensamento do século 19’’, também não podemos mais enfrentá-lo com pensamentos dissociados da realidade urbana. Se é preciso separar o joio do trigo, também é verdade, como diz o colega Luiz Garcia, que logo no começo do jogo o joio está vencendo por vinte a zero. Observemos um pouco como as coisas começam a ficar diferentes em ano eleitoral.
Os sequestradores do publicitário Washington Olivetto mereceram a visita de dupla chilena preocupada com respeito aos direitos humanos. Sim, continuaremos a respeitá-los, embora os algozes de Olivetto o tenham submetido a uma longa sessão de tortura e o abandonassem para morrer asfixiado. Banho de humanidade, o nosso: não tocar naqueles que não respeitam nada e nem ninguém. Se o publicitário não tivesse conseguido uma fresta de ar, usando haste dos óculos para virar um parafuso e assim entreabrir uma porta do cubículo-cativeiro, estaria morto. Agora, ninguém aparece para defender os bandidos. Não há clima. É perder eleição. No caso Abílio Diniz, não: todo a simpatia pelo bando, pela bandeira sem causa e defesa da volta de todos às suas origens.
É preciso mudar um monte de coisas. Mas continuamos precisando do chamado ‘‘olhar de fora’’ - ou seja, alguém assustar-se com o que já nos acostumamos, um veículo revelando aquilo que nos recusamos a ver, um dedo apertando a ferida purulenta que nunca tratamos direito.

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