Percival de Souza
O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), apontando a existência de cerca de 800 envolvidos em atividades ligadas ao tráfico de drogas merece, além do formal encaminhamento ao Ministério Público de uma tomada de decisão que ainda não se vislumbra, em todo o Brasil. Indiciamento, palavra usada pelos membros da CPI com alguma insistência, significa existência de indícios, vestígios, no caso relacionado ao narcotráfico e lavagem de dinheiro; corrupção em todos os níveis de Poder, atingindo a tudo e a todos em termos institucionais. Na sequência dos rituais formais, o relatório vai para o Ministério Público, que por sua vez se encarrega de oferecer denúncias. Estas são recebidas (ou não) pelo Poder Judiciário, tendo início assim o processo propriamente dito.
Fatos graves vieram à tona em vários Estados, entre eles São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Amazonas. Uma teia de corrupção, aliada ao tráfico de influência, envolve as atividades nefastas dos traficantes. Independementemente do que acontecerá no futuro, por decorrência das atividades da CPI dois aspectos precisam ser destacados imediatamente, para que este assunto seja colocado em seus devidos termos: 1) de agora em diante não se pode mais ignorar a profundidade do problema, identificado numa radiografia de amplitude nacional que revela através de indícios que precisam transformar-se em provas o poder da infiltração do narcotráfico em cada ponto do País; 2) além das providências futuras, é preciso que cada Esado comece a agir imediatamente em torno dos fatos concretos e dos e nomes suspeitos, entre os quais - segundo a CPI encontram-se empresários, vários escalões policiais, magistrados, deputados estaduais e federais, ex-governadores e prefeitos. O quilate criminal dessas pessoas impressiona nesta amostragem do crime organizado. As observações são feitas com inspiração numa carta que recebemos do professor Elinaldo Carlini, diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo, a nossa querida Escola Paulista de Medicina.
A carta tem o título Pedido de Socorro e informa que o melhor levantamento nacional sobre uso de drogas depende, para continuar, de um apoio financeiro federal, através da Secretaria Nacional Antidrogas. Conta Carlini que esse apoio foi aprovado em agosto do ano passado, mas não foi liberado até agora, prejudicando o andamento de nossa pesquisa, tão importante para que programas de prevenção adequados sejam executados. Mais: o médico Carlini, uma das maiores autoridades do Brasi no assunto, nos pede pronunciamento junto ao general Alberto Mendes Cardoso, ministro-chefe do Gabinete Institucional da Presidência da República, para que o assunto seja resolvido.
Para o registro, verificamos como fatos graves continuam sendo vistos, na prática, sem a necessária e indispensável presteza. Neste caso específico, os atalhos da burocracia inoperante estão sendo mais poderosos do que o caminho que a Escola Paulista de Medicina pretende pavimentar.
É como A Caverna, a magnífica obra do Nobel de Literatura, José Saramago, que inspirado em Platão narra a história de homens que, vivendo na escuridão, ficam com medo da luz no caso, a luz que revela imagens reais, concretas, e que muitos insistem em não querer ver, nem ao menos perceber. Como se Saramago tivesse personagens reais em todo Brasil, preferindo a cegueira em lugar da luminosidade.
Em sua tese de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o psicólogo Manuel Morgado Rezende adverte, em relação aos fármacos-dependentes, que as propostas e modelos de tratamento são em geral, procedimentos ecléticos de ações médicas, psicológicas, sociais e religiosas; que é pouco comum encontrarmos modelos puros; que nas últimas décadas instalou-se uma panacéia de abordagens, um verdadeiro vale-tudo para se obter a abstinência de drogas.
É isto: droga envolve prevenção, repressão e tratamento. Três partes que estão se mostrando ineficazes. O relatório da CPI exige repressão imediata. Os dois outros pontos desse tripé impacável, entretanto, merecem extamente a mesma atenção.





