Percival de Souza
A face oculta
Foi um alvoroço: a Unesco, órgão das Nações Unidas para assuntos de Educação, Ciência e Cultura, tabulou os dados sobre homicídios em todo o País, fez as projeções, verificou as proporções e concluiu: a região da Grande Vitória, no Espírito Santo, é a mais violenta em todo o território nacional. A proporção assinalada é de 84 assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes, com base em dados catalogados em 1997. Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente, ocupam os terceiro e quarto lugares do ranking de morte. Curitiba que alívio para os paranaenses! está em 8º lugar.
O coordenador da pesquisa, Jacobe Waiselfisz, da Unesco, esteve na capital capixaba para explicar detalhes da pesquisa, cujas informações coincidem com idêntico levantamento organizado pelo Ministério da Saúde. Fui convidado para procurar decifrar o enigma dos dados preocupantes, chocantes, repugnantes. Bem que o secretário estadual da Justiça comentou comigo: Aqui, é a banana que come o macaco. A frase possui um sentido nada dissimulado porque aponta para inversões de regras, valores e ausência de padrões éticos.
O que está acontecendo em território capixaba serve de alerta para todos nós, habitantes de outros grandes centros urbanos. A pesquisa assusta porque a tendência sempre é a de não se acreditar que certos horrores não acontecem bem diante de nós. Aí é que estas acontecem.
Ocupar o primeiro lugar numa classificação desse tipo é incômodo, desagradável, de certo modo humilhante. Ninguém quer ficar na frente nesse tipo de contagem. Detalhes de pesquisa: a maioria das vítimas é jovem, muitos crimes acontecem no dia 12 de cada mês e há uma co-relação entre os casos e tráfico e uso de drogas. Decodificação dos número: juventude abandonada, sem perspectiva; mortes no dia em que se costuma fazer pagamentos na região e as drogas que não deixam nenhuma boa história onde são vendidas e consumidas.
A exposição de Jacob Waiselfisz surpreendeu as pessoas que lotaram o auditório da Federação das Indústrias do Espírito Santo. Porque apontou para questões de cidadania plena, ausência de educação, carências de saúde e vontade política de se resolver efetivamente os graves problemas sociais. Destacou-se, entretanto, que a penúria que assola legiões de brasileiros não é a culpa de tudo, embora explique parcialmente violência e criminalidade. Em termos meramente repressivos, evidentemente não se deve tolerar a proliferação do comércio ilegal de armas de fogo também no Espírito Santo, o instrumento mais utilizado pelos assassinos e ou pontos de venda de drogas.
Em resumo, não se pode considerar tudo única e exclusivamente um problema de Polícia. Há fatores sempre emergentes que contribuem para aumentos significativos dos índices de criminalidade. Investe-se de um lado, colhe-se os resultados de outro, caminha-se pela pavimentação da prevenção e, aí sim, consegue-se padrões razoáveis de estabilização da segurança pública a paz social em sentido amplo.
Ao final de tudo, ficou a determinação aparente de não camuflar a sujeira social debaixo do tapete mais sim enfrentar a realidade e livrar-se, através de ações concretas, desses números surpreendentes.
Não existe motivos para comemorações, mas é importante ficar consignado, para o Paraná, que os números relacionados a mortes violentas em nosso Estado estão atrás, além da Grande Vitória, do Recife, Rio, São Paulo, Baixada Santista, Salvador e Porto Alegre.
Outra coisa a ser registrada: por trás desses números da Grande Vitória, existe uma contaminação de poder político, a conquista mafiosa de Prefeituras para manipulação de verbas, orçamentos e licitações e uma inacreditável cara-de-pau no Legislativo Estadual, que criou uma CPI para apurar tais fatos, tem em sua composição cidadãos que não são exatamente acima de qualquer suspeita, conforme se pode constatar facilmente. Não é por outro motivo que repousa em alguma gaveta da Procuradoria Geral da República um dossiê de 70 páginas, elaborado pelo Ministério Público Federal, mostrando e nominando os principais podres do crime organizado no Estado do Espírito Santo. Portanto, a matança capixaba tem uma face visível e outra invisível nociva, impune, sórdida e imoral.





