Percival de Souza
Fim do mundo
Nunca pensei que um dia fosse ver criança se comportando como estadista. Mas aconteceu nesta semana, num dos bairros da periferia de São Paulo: crianças saíram às ruas numa passeata contra a violência nas ruas, brandindo cruzes de madeira que representavam os nomes de vítimas, pedindo um pouco de sensatez para o mundo dos adultos.
Pois é, elas foram estadistas, enquanto os marmanjos, muitos deles podendo ser estadistas, preferem atitudes e comportamento pueris. O essencial é invisível para os olhos. Só se vê bem com o coração, escreveu Saint-Exupery, no seu Pequeno Príncipe. É certo que por trás das crianças havia professores, ensinando aos seus alunos civilidade, consciência, autocrítica, como ter olhos de ver e ouvidos de ouvir, nesses tempos em que muitos apenas enxergam e escutam.
Na capital dos paulistas, a voz das crianças estadistas ficou um tanto obscurecida, não pelo eclipse de 11 de agosto, mas a rigor pelo destaque que se deu às previsões - ignorantes ou novamente pueris - elaboradas a partir de interpretações das Centúrias do astrólogo francês Michel de Nostradamus. O fim do mundo está tendo outra representação.
Vejamos algumas. Costumamos dizer é o fim do mundo, não para cataclismos e hecatombes, mas para determinados fatos e episódios. O bate-boca entre José Serra e Xuxa Meneghel foi um desses fins do mundo. A saúde brasileira, a nossa educação, a cultura da violência em nosso País entram no rol de fim do mundo. Conforme o regionalismo, poderíamos usar a expressão é o fim da picada. Também pode ser, na literatura, aquele lugar onde a dignidade humana nunca chega, como no livro de Vargas Llosa sobre a Guerra de Canudos, chamado A guerra do fim do mundo.
A ignorância que campeia é o fim do mundo. A impunidade também. Quando a tecnologia evolui a humanidade retrocede, mais fim de mundo. É isto com o que devemos nos preocupar: a maneira pela qual nós, seres humanos, estamos de maneira diligente, consciente, promovendo a cada dia o fim do mundo. Porque o fim da humanidade é o fim do mundo.
Ao longo da semana, a Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo promoveu palestras como reflexões jurídicas para a PM do terceiro milênio. Estiveram no evento, realizado num dos auditórios do Palácio do Anhembi, vários profissionais da área do Direito. De modo geral, todos mostram um descompasso entre teoria e prática que configuram um fim de mundo para a sociedade. Ou seja: é tanta pilantragem, gatunagem; são tantos os crimes de todos os tipos, que a gente se assusta.
Fim de mundo é a legião de criminosos e impunes; fim de mundo é a violência ser modismo comportamental; fim de mundo é pretender que a Polícia resolva sozinha todos os problemas de origem social; fim de mundo é teorizar sobre coisas nas quais não se acredita; fim de mundo é a morosidade do sistema judicial; fim de mundo é pretender que declaremos os outros culpados e eles mostrem inocência; fim do mundo é ser superficial em fatos de grave profundidade; fim do mundo é acreditar que o nosso sistema criminal esteja dando conta de recados; fim de mundo é a miséria e a violência alimentarem status em várias instâncias e circunstâncias; fim do mundo é mamar na sociedade sem oferecer nada em troca; fim do mundo é usar de púlpitos para pregar apenas a subserviência e o conformismo; fim do mundo é ser limitado e considerar-se iluminado; fim do mundo...
Na próxima semana, vamos a Vitória, ES. Os capixabas estão levando um representante da Unesco e seus cálculos sobre a cidade apontada como uma das recordistas da violência no Brasil. Vamos refletir um pouco sobre isso do mesmo modo como se deve fazer em todos os centros urbanos. Esperou-se o fim do mundo como algo espetacular. As crianças da periferia ensinaram a ver o que ficou encoberto ao longo das especulações sobre Nostradamus. Ainda há tempo de ver ou, pelo menos, perceber.





