Garotinho, o governador do Rio, teve coragem ao perceber que os rumos políticos da segurança pública estavam deixando a desejar e exonerou o titular da pasta, general reformado do Exército, substituindo-o por um coronel da Polícia Militar e colocando ainda um almirante no Centro de Inteligência da Polícia.
Aparentemente, uma medida de rotina. Mas não. É um caso exemplar para que possamos entender como estão os demais Estados em situação semelhante, onde na maioria das vezes se prefere contemporizar do que enfrentar os problemas de frente. Eça de Queiros, em sua obra A Relíquia, adverte-nos sobre momentos em que podemos ser envolvidos por aparências - isto é, ‘‘sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia’’, conforme as palavras do escritor.
Primeiro ponto: comando militar e não civil de toda a Polícia. Porque a experiência em contrário, profissionalmente falando, deixou a desejar e transformou o Rio de Janeiro, aos poucos, num lugar que em o poder paralelo da bandidagem passou a falar bem mais alto. As teses sociais não encontraram eco, não conseguiram repercutir, e entre a verdade nua e crua, autêntica navalha na carne, a sociedade acabou optando por cair na real.
Segundo ponto: a chefia do Executivo Estadual não pode vacilar em dar cartão vermelho quando são evidentes os sinais de que disputas internas e fogueiras de vaidades acabam virando cortina de fumaça para encobrir aquilo que deveria ser o principal - ou seja, a máquina policial fazendo sua parte a contento num contexto evidentemente amplo, mas no qual ela possui atribuição específica diante da qual não pode nunca vacilar. Ou seja: não podemos ficar abraçados com as teorias quando os fatos desmentem e anulam todas as eventuais boas intenções. Quando poesia vira tese chinfrim, sua vida é curta. Vai parar logo no cemitério.
Reunidos em Brasília, há duas semanas, os secretários da Segurança do País, expuseram suas agruras e alguns deles, em regiões críticas em termos de crimes como tráfico de drogas, contrabando e roubo de carros e cargas, não hesitaram em pedir que o Exército os ajudasse em lugares vulneráveis. A resposta, mais uma vez, foi não. As Forças Armadas temem o que seria a contaminação moral provocada pelas tentações às quais setores policiais não conseguem resistir. De qualquer forma, fica mais difícil entender a existência de um forte aparato em termos de estrutura militar, como é o caso do Mato Grosso do Sul, e os bandidos organizados não estarem nem aí com essa situação, como se tivessem absolutamente nada a ver com isso. Nesses tempos em que se fala e se exige tanto a transparência, é preciso olhar para o que aconteceu no Rio e pensar nas adequações que cada Estado pode fazer. Claro que temos diferentes realidades regionais e em muitas unidades da Federação não há porque se cogitar de colocar um militar à frente da política estadual de segurança. Prioridade um: os fatos estão sufocando o blablablá.
Amanhã, por exemplo, FHC fala à Nação para explicar o que o Governo está tentando fazer diante da crise econômica. Por coincidência, na mesma segunda chegam ao Rio nada menos do que doze ministros estrangeiros da Defesa para participar da maior feira de armamentos do Hemisfério Sul. Diante da criminalidade e violência, muitas autoridades precisavam, também, explicar-se de vez em quando. E os governantes deveriam estar atentos.
Quando os índices atingem picos intoleráveis temos a noção de que a sociedade, como um todo, está enferma. Ao mesmo tempo, porém, eles mostram que algo está errado no aparato legal, o que é evidenciado pelas reações das pessoas quando criticam lentidões e morosidades na aplicação da lei, desconfiança em relação a setores da Polícia e não entendem por que, depois de tantos holofotes, luzes, câmeras e ação, muitas denúncias do Ministério Público - como acontece em São Paulo no caso das máfias municipais - são rejeitadas pelo Judiciário por falta de provas e preenchimento de requisitos legais. Denúncia inepta também assusta. A essa altura, chega de fazer de conta: policiais, promotores, juízes e agentes do sistema penitenciário precisam fazer a sua parte. A criminalidade é uma serpente, que passa pelas quatro instituições. Nenhuma delas é culpada, isoladamente. O conjunto é que está deixando a desejar. É esse conjunto, sem bodes expiatórios, que temos de consertar.

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