Percival de Souza
Neste domingo de Páscoa - a passagem da escravidão (Egito) para a liberdade e vitória de Jesus sobre a morte (hoje é o dia da ressurreição) - podemos refletir sobre a sociedade doente, enferma mesmo, necessitando urgentemente de uma nova perspectiva como o cristianismo nos oferece hoje, através de sua mais importante data no calendário litúrgico.
Mas como a coluna não é teológica, na essência, podemos refletir neste domingo sobre a atenção que nos deve merecer essa sociedade doente com criminalidade e violência emergentes. Isto é: tais sintomas estão em todas as classes sociais e ficaram para trás os tempos em que muitos pretendiam, à Lombroso, que criminoso tivesse cara-padrão, com biotipo próprio.
Começamos com o caso Desirée Vignoli. A atriz está respondendo processo porque foi malhar numa academia e, aproveitando-se do fato de uma bolsa estar dando sopa, apoderou-se dela, onde havia talão de cheques e cartão de crédito, e saiu numa gastança por aí. Em termos formais, a isso se chama de furto, na primeira fase, e estelionato, na segunda. A defesa - o que fazer diante da constatação insofismável? - decidiu partir para uma linha de alteração psicológica. Ou seja: a mulher fez o que não devia mas só para manter o padrão de vida dos filhos.
Não quero, e nem é minha função julgar ninguém. Posso ponderar, contudo, que está não é a forma de se educar ninguém, pois implica em mergulhar os próprios filhos no domínio cruel do consumismo e a eleição dos shoppings em templos modernos. Além do que, fazer isso para manter padrão de vida é o tipo de desculpa que serve para qualquer ladrão, seja por furto, seja por roubo, e até mesmo por outro tipo de crime. A opção consciente pelo crime significa buscar dinheiro mais fácil do que dando duro no trabalho. Os discípulos de Freud poderão apontar desvios de ordem psicológica, certamente, mas não justificar o ato praticado. De qualquer modo, se a tese prosperar o juiz que cuidar do caso deverá receber um laudo, com diagnóstico bem elaborado e não escapista, para ajudá-lo em sua decisão.
Dos artigos 157 e 171 do Código Penal, voltemos um pouco para trás e paremos no 129, onde estacionou, também nesta semana, o jovem ex-deputado federal Lindberg Farias Filho (PSTU-RJ). O jovem estava enchendo a cara dentro de uma confeitaria e, às 2 e meia da madrugada, o ajudante de cozinha sutilmente apresentou-lhe a conta, já que não havia mais ninguém dentro do estabelecimento. Foi o que bastou para ser alvo de uma sessão de palavrões, socos e pontapés, caso que teve desfecho na delegacia de Copacabana. Esse negócio de agredir os outros pelos mais variados motivos não é privilégio das chamadas classes menos favorecidas. O espírito da agressão está em toda a parte - física e moral, onde também os expoentes do escândalo da influência nefasta dos edis da Câmara Municipal de São Paulo até onde a desfaçatez na administração da coisa pública pode chegar.
A geração pitbull, cães selvagens desde que adestrados com objetivos de ataque, também está dando o ar de sua graça. A heroína de Campos, aquela vira-latas que salvou um menino de cão que iria matá-lo, tornou-se símbolo da resistência contra os donos desses cães. Os animais são treinados de um outro modo. O que não é possível é estimular instintos de ataque e depois de deixá-los fora do circuito estritamente familiar, de quem está familiarizado com os cães. O pitbull é o fiel representante de uma lamentável categoria humana que só pensa em detonar - exterminando ou espancando - o semelhante de alguma maneira.
O ser humano tem consciência para pensar. Todos esses exemplos antiéticos mostram que não podemos deixar apenas os sonhos envolverem a nossa sociedade. É preciso estancar a violência, para que ela não possa avançar e conquistar cada vez mais espaços. A nossa indiferença faz apenas com que esse explosivo material se acumule e faça mais vítimas - como em outro caso sinistro da semana, no qual o empresário Josenilson Figueiredo, no Rio, foi morto pela própria mulher e a mãe, gananciosas mulheres que se uniram para tirar-lhe a vida e ficar com os seus bens. Que hoje, ao nos desejarmos mutuamente Feliz Páscoa, possamos pensar profundamente no que a data significa.





