PERCIVAL DE SOUZA - TERROR URBANO
O terror-horror na explosão de quatro trens em Madri, causando a matança de dezenas e ferimentos em centenas, escancara a intolerância e o ódio, na imposição da idéia de que fins considerados ''bons'' são absolutamente ''legítimos''. É espantoso, porque é assim que se pretende chegar ao ''justo''.
Você já leu e viu as imagens do ataque-massacre. Tem suas idéias a respeito. Resta-nos apenas tentar e ajudar a entender. O filósofo holandês Spinoza, em seu ''Tratado Teológico-Político'', convenceu-se de que os seres humanos se movem por natureza e não por vício, e usando vários combustíveis, pretendem que os outros pensem e vivam como cada um deles vive. Assim, imaginar que a paixão não faça parte da política seria ''comprazer-se na ficção''. Um comunicado da Al Qaeda, vangloriando-se dos atentados, começa assim: ''Em nome de Deus, clemente e misericordioso...''. Detalhe: a essência de Deus, sabemos todos, é o amor. A trajetória humana é feita de histórias e não de átomos. A frase é do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Esta, na Espanha, é mais uma delas. Talvez mereça contraponto com o padre Vieira, num dos seus sermões: ''Nós somos o que fazemos. O que não se faz, não existe. Portanto, só existimos nos dias que fazemos. Nos dias em que não fazemos, apenas duramos''.
Fazer e não durar passa, como raciocinou Spinoza, pelas paixões humanas, entre as quais podemos incluir inveja e orgulho, vingança e maledicência. Mas também são paixões a solidariedade e a generosidade. Da Espanha, cenário da desumanidade da semana, que agita a Europa e faz ressurgir a tese norte-americana do terror global, voltemos ao Brasil e nossos dias de terror em escala reduzida, mas que não deixa de ser terror.
Os mortos e feridos espalhados por quatro cantos em Madri sepultam muitas teorias. Os nossos mortos e feridos, frutos de um outro tipo de terror, urbanizado, convidam-nos uma vez mais a refletir. Cada corpo estendido, no chão ou numa peça de mármore de necrotério, era abrigo de uma vida que foi desejada e amada, acalentou sonhos e se movia por paixões. Merece respeito, pois. Daí o hábito de cobri-lo enquanto se cumprem as providências de praxe. Nenhum Poder está podendo jogar pedra no telhado do vizinho. A ribalta da política oferece cenas constrangedoras. O que está nas ruas nada tem a ver com os discursos. O povo de Alfenas (MG) perdeu a paciência com o prefeito da cidade flagrado distribuindo pacotes de dinheiro a um bando de vereadores corruptos e jogou muitas pedras na casa dele. Todos esses fatos se interligam: tolerância-intolerância, passividade-violência, divergência-terror. A raça humana está no palco. Os cientistas divulgaram as imagens colhidas pelo telescópio especial Hubble. Do universo-bebê, com 400 milhões de anos, ao adulto de 13,7 bilhões de anos. O mais velho era vermelho. O mais novo é azul. Aqui, ou na Espanha, tudo azul? Não, o vermelho predomina.





