Recebi um convite da Escola da Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro para fazer uma conferência sobre ''subjetividades em guerra''. Achei interessante, por se tratar de uma platéia de magistrados: chamam alguém com o chamado ''olhar de fora'' para delinear o preocupante quadro da violência. A entrevista com o secretário da Segurança Pública do Paraná, publicada nesta Folha no último domingo, torna possível um paralelo entre uma coisa e outra.
Revela o secretário Luiz Fernando Delazari, promotor público, que o orçamento disponível é frágil (R$ 80 milhões); que os efetivos das duas Polícias estão defasados e que se faz mais a polícia ostensiva e o ''combate ao pequeno criminoso''. Uma coisa boa, entretanto: ''meu perfil é técnico, e não político''. A gerência de assuntos policiais, responsável direta pela segurança de todos, tem sido triste na maioria dos Estados brasileiros. Supõe-se que a pessoa que assuma esse cargo seja do ramo, criativa, ágil. Mas não é o que se vê de maneira significativa, como já estou cansado de ver nas reuniões entre eles, no Ministério da Justiça, em Brasília. No caso do Paraná, traduzindo de maneira objetiva e cruel as palavras do novo secretário, escolhido somente depois de cinco meses após Roberto Requião ter assumido a chefia do Executivo estadual, Delazari não recebeu propriamente uma Pasta para administrar e sim uma sucata.
O trágico dessa herança, consideravelmente irresponsável, sem maiores compromissos com a sociedade, que jamais pediu para ser cobaia de aventuras ou indiferenças, é que o preço a ser pago pela defasagem é muito caro. Conversando com o subsecretário de Segurança do Rio de Janeiro, Marcelo Itagiba, ele me disse que pretende valorizar o serviço de inteligência, pedir ajuda para que as armas que não são compradas em lojas formem a parte principal do arsenal dos traficantes e que se entenda de uma vez por todas que o dinheiro de quem vende droga só pode vir de quem compra. A força do tráfico, hoje uma ameaça para os grandes centros urbanos, é tanta que os vendedores da droga que infestam Vigário Geral e Parada de Lucas fizeram comboios da morte e saíram para promover uma matança de desafetos (18, na última quinta-feira), carnificina planejada e executada à revelia dos órgãos do Estado: poder desafiador, arrogante e impune ao fazer famílias inteiras como reféns e escudos humanos. Bárbaro, vergonhoso, inaceitável.
Não se enfrenta tudo isso pensando que Polícia seja brincadeira de menino. O crime organizado, como o nome está dizendo, pensa e planeja o que faz, ao contrário dos amadores de plantão. Que se acorde, então, do sono profundo. A população está cansada de ouvir só teorias e diagnósticos. Está na hora de aplicar os antídotos, conciliá-los com políticas públicas, não priorizar as infantis brigas institucionais e pensar mais no patrão de todos o povo, cada vez mais cansado.

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