PERCIVAL DE SOUZA - NÃO SOMOS IGUAIS
Chegamos ao ponto em que precisamos olhar algumas questões fora do ângulo jurídico, para entendermos melhor o que anda se passando em nosso País nesses tempos ainda inebriados de sonhos por dias melhores. Uma delas, crucial, é a da reforma previdenciária. Provado está que o assunto é uma caixa de marimbondos. Com todas as letras, os privilegiados porque adquiriram estão dizendo para todos os brasileiros: não somos todos iguais coisa nenhuma. Se o cofre está arrombado, e a conta vai explodir, e é preciso controlar o fluxo da torneira, estabelecida está a diferença entre uniformes, togas, macacões, aventais, capacetes e roupas comuns.
É isso o que estão dizendo e, o que é pior, tentam nos convencer. Bem claramente: ''eu sou melhor do que você, mereço ganhar melhor do que você, dou mais duro na vida do que você e tenho o direito de contribuir menos e receber mais''. É assim que se pretende mudar o País: mantendo em paz a ordem dominante dos privilegiados e sentando a pua nos desprivilegiados que nem podem reclamar. É preciso manter a aparência, mesmo que ela entre em conflito com a essência.
Machado de Assis, como escritor, foi exímio nessa arte. Com um desconto: como em ''O enfermeiro'', uma dentre ''Várias Histórias'', o personagem esculpe a consciência pela opinião dos outros. Já em ''O espelho'', conto de ''Papéis avulsos'', a observação dos outros modela a identidade. Os dois contos foram escritos no final dos anos noventa do século XIX. Estamos começando o terceiro milênio e, entre nós, nem mesmo a opinião alheia, embora unânime, e tão pouco o olhar do próximo estão sendo capazes de tirar travas dos olhos e o mofo das almas. Estamos entendendo melhor, à brasileira, a imagem criada por Cervantes aquele Quixote frágil, lutando contra moinhos de vento bem alicerçados, como um defensor de causas impossíveis. Personagem que inspirou Borges a definir que a um verdadeiro cavalheiro só podem interessar causas perdidas.
Agora que a literatura nos ajudou a entender melhor o cenário à nossa volta, um auxílio final: George Orwell, em ''A revolução dos bichos'', dizia na primeira metade do século passado que todos são iguais mas, alguns são mais iguais do que os outros. Assim estamos: escola não é igual para todos (que tal tentar chegar à universidade pública sem ter condições de pagar ensino particular?), cadeia não é igual para todos (quem tem canudo fica em lugar melhor, sinal de que o cárcere da escória é insuportável), a máquina gigantesca encarregada de dizer o que é justo só funciona para quem pode lubrificá-la e a impunidade é marca registrada de escalões bem aquinhoados. A receita da desigualdade vale para o tratamento lamentável destinado às vítimas: quem pode, merece atenção; quem não tem condições, amarga sozinho suas desventuras.
Óbvio ululante, não só ''lulante'': para o bem de todos, precisamos mudar. Mas quem está a fim de mudar? Quem acredita que as coisas devem ser mexidas só na vida dos outros não está a fim de mudar coisa nenhuma. Portanto, estamos vivendo a hora da verdade, contemplando (e como é difícil!) os nossos próprios vícios e os defeitos alheios. É a metástase da discussão sobre a Previdência Social.





