''A nossa consciência é um juiz infalível, enquanto não a assassinamos'', escreveu Honoré de Balzac. A frase se ajusta como uma luva a este caso sinistro da execução sumária de três fiscais do trabalho e o motorista deles, em Unaí, noroeste de Minas Gerais. É tempo de contratar pessoas em regime de trabalho escravo para a colheita de feijão. Isso é feito pelos ''gatos'', eufemismo para quem promove a extração do suor dos miseráveis aprisionados pelos grilhões da escravatura não disfarçada em plena aurora do terceiro milênio.
Os fiscais estavam inspecionando os tais contratos ofertados pelos ''gatos'', os intermediários entre a oferta e os donos das plantações. Foram emboscados e mortos. O motorista, mesmo alvejado, conseguiu dirigir mais alguns quilômetros. Ao ser socorrido, balbuciou que os assassinos ''eram de Brasília'' (tudo indica que seja referência às placas do veículo utilitário usado pelos pistoleiros) e morreu.
Os assassinatos tiveram repercussão nacional e internacional, como não poderia deixar de ser (pelo menos para os que têm consciência), a menos que se prefira ocultar sob o manto diáfano da impunidade esse tipo de aberração. Só no ano passado, o Ministério do Trabalho libertou quase cinco mil escravos nessas condições.
O Governo reagiu, foram tomadas providências imediatas. Muito bem. Conceda-se, concomitantemente, o Troféu Felino de Ouro para o ilustre presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha. Ele anunciou uma comissão para ''acompanhar as investigações'', o que pelo porte da reação oficial aos crimes soa desnecessário. Investigar, esclareça-se, não é ir conversar com fazendeiros e nem sacar listinha com suspeitos de plantão. É ir para cima, como perdigueiro, do utilitário branco com placas de Brasília (que fica a 170 quilômetros do local). É usar como pista os cartuchos calibre 380 encontrados na cena do crime. É descobrir o que os fiscais fizeram na véspera de serem mortos, a última terça-feira, que tanto incomodou os mandantes dos matadores.
O resto é pirotecnia, self-promotion e nada mais. Mas o ilustre deputado parece outra pessoa, agora, bem diferente daquela que em novembro último tomou-se de dores contra o jornal da Casa isso mesmo, o ''Jornal da Câmara'' porque este havia noticiado que o vice-presidente da Câmara fora condenado por manter trabalhadores em regime escravo na sua fazenda. Segundo o douto João Paulo, essa notícia somente poderia ser publicada quando a decisão judicial de primeira instância transitasse em julgado, isto é, definitivamente.
O João Paulo desta semana diz que nada o deterá na sua luta incansável em prol do povo explorado. O João Paulo de dois meses atrás fez o periódico da Câmara que preside retratar-se. Pela cabeça dele, fatos não podem ser noticiados, mesmo que ''inocêncios'' convertam-se em ''culpôncios'', por obra do Judiciário e não da imprensa. É a síndrome José Dirceu, também um, outrora, e outro, nestes tempos intrigantes.

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