PERCIVAL DE SOUZA - BONÉ E CANUDOS
Em nome da terra, mais fácil de ser conquistada do que dividida, como aprendeu Josué ao suceder Moisés, nunca vimos antes um boné causar tanta celeuma como este do MST que o presidente Lula enfiou na cabeça. Muita coisa se disse sobre o assunto, mas parece que se evita o principal: 1-) é contra nosso ordenamento jurídico invadir, saquear, destruir, incendiar, fazer reféns e praticar atos que estejam ferindo a lei; 2-) é contra esse mesmo ordenamento armar-se até os dentes e ficar pronto para mandar chumbo. A violência é sedutora: de um lado, considera-se legítimo utilizá-la, à base do princípio maquiavélico de que os fins justificam os meios, e de outro também se considera correto defender à bala terras e propriedades. No meio do fogo cruzado, estão a Constituição, o Código Penal e o Código Civil, à espera de quem eventualmente possa interessar-se.
Moral da história: ficamos na Tombstone do velho oeste quando se pode agredir, ferir e destruir e também repelir. O assunto é tão difícil, diante das paixões incendiárias, como quando se discute se Lula deveria ou não ter colocado o tal boné na cabeça. Nada demais, para muitos; emblemático, para tantos outros. É a discussão sobre a quadratura do círculo.
As invasões pipocam e do Pontal do Paranapanema, interior de São Paulo, assistimos com destaque o que descrevemos acima: 1-) fazendeiros contratam pistoleiros do Mato Grosso do Sul para atirar se invasores ''vierem com tudo''. Deram entrevistas e tiraram fotografias; 2-) massas de miseráveis foram trazidas de outros Estados e até do Paraguai para engrossar o caldo dos acampamentos. Também com entrevistas e fotos, José Rainha, um dos líderes, disse que ali se erguerá uma ''nova Canudos''. A imagem, evidentemente, não é dele, mas de algum falso intelectual, que nessa comparação comete uma heresia histórica e literária, desfocada totalmente de ''Os Sertões'', de Euclides da Cunha. Primeiro porque para o arraial da caatinga baiana convergiram mal-aventurados em geral, querendo mais isolar-se naquele fim de mundo no final do século 19. Não havia o que invadir. A República novinha em folha temeu que aquilo fosse uma reação monárquica. Este, o grande equívoco. Antonio Conselheiro era basicamente um líder messiânico. Está nos livros é só ler, estudar e aprender.
O cenário está armado. Exagero, para alguns; perigo, para outros. Tem gente querendo cadáver, sonhando com sangue, louca pelo conflito. Diante de tanta confusão de idéias e ações, é bom lembrar o que Adam Smith, notável economista inglês (''A Riqueza das Nações''), reitor da Universidade de Glasgow, dizia em 1775: ''Para transformar um estado do mais baixo barbarismo ao mais alto grau de opulência são necessários: paz, tributação leve e uma tolerável administração da justiça. Todo o resto vem pelo curso natural das coisas''. A lição, como se vê, continua em vigor.





