PERCIVAL DE SOUZA - BOMBAS NOS GARIS
Surreal: milhares de pessoas espremendo-se numa fila para disputar um emprego de gari, entre elas muitas de nível universitário, e para ''manter a ordem'' (não é interessante esse conceito pervertido de ''ordem''?) a Polícia sentando o porrete e jogando bombas de gás.
O desespero que gera 500 mil desempregados na região metropolitana do Rio de Janeiro, segundo o IBGE, é o mesmo que percorre outras regiões brasileiras, onde a maioria dos que não consegue trabalhar tem de 18 a 24 anos de idade, a mesma faixa etária da grande massa dos prisioneiros brasileiros e também das vítimas de homicídios. Há uma co-relação entre tudo isso e a matança, roubos e sequestros que varrem o País, conforme os dados recentes da Secretaria Nacional de Segurança Pública. Junto com eles, veio a ONU informando, no dia mundial de combate às drogas, que estamos em segundo lugar no ranking de consumo de maconha na América do Sul e o nono entre os cheiradores de cocaína. Isso dentro de um cenário mundial com 200 milhões de usuários de drogas, ou 4,7% da população do planeta. É a indiferença, ou alienação, sob vários formatos, com droga ou sem droga. É grande a legião de entorpecidos e na hora de reverter a situação e tirar nossa economia da UTI, como diz o ministro Palocci, da Fazenda, ''não se pode fechar a porta para todos os erros porque a verdade ficará fora''. Foi Tagore quem disse isso. Enquanto as pessoas tomavam pancada e bombas no Rio, sonhando com um emprego que pode render 600 reais mensais, entre salário e benefícios, e este é mais um retrato do Brasil, continuamos assistindo ao triste espetáculo dos que querem manter intocados os seus privilégios, ajudando a sugar a massa miserável para continuar desfrutando do bem-bom. O presidente se destemperou nas palavras, ao que parece um pouco cansado de dar murro em ponta de faca. Mas que dá para entender Lula... ah, isso dá. Cansa mesmo você querer mudar para melhor e só encontrar resistência entre os que deveriam ser solidários. Por outro lado, a Nação espera aquilo que continua sendo esperança. O medo agora é outro. É o da incerteza, daí o tom messiânico de suas palavras, tudo de certa forma previsto por Tolstói ao escrever que ''é mais fácil escrever dez volumes de filosofia do que por em prática um só preceito''. Enquanto o circo pega fogo em matéria de violência, a semana prevista para discuti-la na Câmara Federal foi ridícula. A maioria dos assuntos saiu da pauta e muitos parlamentares ausentaram-se de Brasília diante das imperdíveis festas juninas. Os que ficaram preferiram outro forró: engalfinhar-se na estéril discussão entre policiais e promotores para definir quem manda mais em matéria de investigação e na definição de crime organizado, feita há muito tempo pelos seus artífices.
Bombas nos garis. Bombas na dignidade. Bombas na esperança. Bombas na ética. Bombas no pudor. Bombas por toda parte, em nome da ''ordem'' na grande desordem. E tomemos pancada.





