PERCIVAL DE SOUZA -
COMANDO DA MORTE
De caçadores a caçados, de perseguidores a perseguidos, de atacantes a alvos, os policiais militares de São Paulo viram-se, desde o último domingo, como objetivo de atentados contra eles, viaturas e bases comunitárias, com tiros de grosso calibre, bombas e granadas, e uma intimidação como nunca se vira antes na cidade.
Os bandidos, na real acepção da expressão, decidiram que tudo o que fazem é justificável e procedente, aproveitando-se em larga escala dos devaneios bizantinos e estéreis sobre o assunto. Partiram para o ataque, criando um clima de constrangimento e intimidação. Atacado pelos flancos e pela frente, o aparato de segurança do Estado viu-se acuado, temeroso, fragilizado, porque tudo isso resultou em mortes, ferimentos e destruição.
Diz a cúpula policial, com a qual tenho conversando constante e profundamente, que a origem do terror está numa organização criminosa chamada Primeiro Comando da Capital, o PCC, que tem suas bases implantadas de forma sólida em estabelecimentos penais de segurança máxima. É uma contradição, que o secretário da Administração Penitenciária tenta explicar dizendo que é impossível cortar a comunicação dos presos com mundo exterior, a menos que ''seus olhos sejam vazados e suas línguas cortadas''. Já o secretário da Segurança chegou a dizer que tais investidas chegam a ser ''infantis''. Não consigo entender nenhum dos dois. Aliás, de maneira nada sutil, o governador do Estado resolveu sair na madrugada de anteontem percorrendo as bases comunitárias para levar um pouco de alento aos policiais, abalados pelo ímpeto dos criminosos e perplexos com as primeiras reações oficiais.
Podemos ter posições políticas e ideológicas sobre a Polícia sentindo-se acuada e tendo que mudar rotinas e turnos de serviço. Prefiro ser factual: se somos vítimas de criminosos, precisamos de socorro. E, claro, não vamos ligar para o PCC. Vamos chamar a Polícia. Seria ótimo se a repressão (legítima, nas balizas da lei) fosse dispensável na sociedade. Mas Polícia, guarda das cidades na origem da palavra, existe desde os primeiros aglomerados. Como mestre do terror, prefiro Edgard Allan Poe, e não o PCC. ''Parece porque é'', escreveu Poe num de seus romances. Este é mais um momento que a sociedade vive para que se construa uma política de segurança pública. Continua difícil. Enquanto isso, os prisioneiros de alta periculosidade concentrados na Penitenciária de Presidente Bernardes, onde está o famigerado Fernandinho Beira-Mar, apresentaram uma lista de reivindicações, condição sine-qua-non para não haver represálias externas. Querem, entre muitas outras coisas, frios e legumes variados, rocambole, goiabada, iogurte, cremes e hidratantes. É a arrogância debochada num país onde o salário mínimo é de R$ 240. Até quando bandido pode mandar e Estado obedece? Nós, cidadãos, estamos pagando a conta da incompetência sem limites.





