A cena se repetiu em muitas casas naquela manhã de 11 de setembro. A programação - infantil - das televisões foi interrompida pela imagem chocante: um edifício é atingido por um avião na distante Nova York, dando início a um incêndio. ''Foi igual ao sequestro do Silvio Santos. A TV mudou e não passou mais desenho'', desabafou Graziele Fernandes Freire, 6 anos, moradora do Jardim Monte Cristo, na zona leste de Londrina.
De repente, palavras antes desconhecidas começaram a fazer parte do universo infantil: terrorismo, taleban, islamismo. No bairro onde Graziele mora com o irmão, Euclides Gaudino Freires Neto, 8 anos, e os pais, há conflitos diários que preocupam muito mais do que a guerra entre Estados Unidos e Afeganistão.
Os dois irmãos e o amigo, Wesley Fernando Silva Mendes, 8 anos, também morador do Monte Cristo, contam que a violência no bairro e, às vezes, as discussões na família, incomodam muito mais que as notícias de bombardeios. ''Tem vez que sai tiroteio aqui no bairro. Outro dia tinha até um canhão. Mas a polícia conseguiu prender os bandidos'', conta Wesley.
Apesar do convívio com uma realidade mais violenta, as cenas do atentado ao World Trade Center, de Nova York, chocaram os três. ''Aquilo não foi certo. Matou muita gente'', diz Wesley, que estuda, junto com os vizinhos, em uma escola municipal do bairro.
Em uma escola particular da área central da cidade, eram tantos os questionamentos sobre terrorismo que os professores não tiveram outra alternativa, a não ser levar a discussão para a sala de aula. Nas provas de Alex Atsushi Takeda e Louisee Rodrigues da Cruz, ambos com 10 anos, haviam perguntas do tipo ''qual o meio de transporte utilizado pelos terroristas para destruírem o World Trade Center?''
''O ser humano briga por tudo'', afirma Alex. ''Tudo bem os Estados Unidos se voltarem contra o terror. Mas não deviam bombardear o Afeganistão, que é um país pobre.'' Louisee tem medo que o conflito acabe se transformando em uma 3ª Guerra Mundial.
A psicóloga e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Sonia Maria Petrocini, diz que é difícil avaliar, agora, os efeitos psicológicos de uma guerra em um lugar tão distante para as crianças brasileiras. ''O nosso tempo não é mais fácil do que outros tempos. O que o mundo contemporâneo fará? Não somos seres autônomos que escolhemos livremente numa economia chamada de neoliberal e de mercado aberto'', explica a psicóloga. ''A guerra é uma expressão extrema e industrial, com aparelhagem muito sofisticada, de destruição. Mas a própria civilização está em permanente construção e destruição.''
A idéia mais forte da guerra, lembra a psicóloga, é a da morte. Crianças e adultos se deparam, então, com um paradoxo. O mesmo veículo de comunicação que informa sobre guerra, fala sobre avanços da ciência e o sonho do homem em se tornar imortal. ''O ser humano só sabe que está vivo porque existe a morte a espreitar o seu organismo. O melhor é conseguir viver com saúde até o momento da morte'', afirma. E quando se trata desse assunto, a professora aconselha aos pais a conversarem com os filhos, respondendo as dúvidas das crianças.
Na opinião dela, há coisas que deveriam preocupar mais os pais, como a prostituição infantil e as drogas. Outra coisa, é o fato de as crianças tratarem o corpo como um objeto. ''Há crianças entrando muito cedo em um mundo de modelo'', constata. Outro alerta da psicóloga é quanto ao uso inadequado da informática, que acaba transformando as relações humanas em virtuais. ''A informática está aí para que o homem possa dominar melhor o seu tempo. Mas ele passou a ser comandado pela máquina.''

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