Descendente de poloneses, nascido e criado em Campo Magro, o agricultor Luís Alles tem uma história diferente. Preso no campo por causa do único trabalho que sabe fazer, já pensou várias vezes em se mudar para a cidade grande. ‘‘Só não vou para lá porque não tenho estudo’’, diz ele.
Proprietário de uma chácara que divide com a família, planta feijão e batata. Mas boa parte da safra há muito tempo não encontra comércio. ‘‘Nós chegamos a jogar fora de 400 a 500 sacos de batata’’, conta. ‘‘E isso que o saco não sai por mais do que 4 reais’’.
Aparentemente conformado com a situação, o agricultor ainda não desistiu de plantar, mesmo diante de tantas dificuldades. Mas também não desistiu de sonhar com um futuro melhor pelo menos para as três filhas. ‘‘Elas não ajudam na roça, porque estão estudando’’, explica Alles. ‘‘Assim, um dia, elas vão poder ir para a cidade. Mas e a gente? Vai sair fora e fazer o quê?’’, diz, referindo-se também à esposa. ‘‘Só saímos daqui, se realmente a cidade crescer até o campo. E isso porque aí não vai ter outro jeito, senão deixar de lado a agricultura’’, completa.
Panorama - De acordo com a a Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Paraná (Fetaep), mais de 567 mil pessoas já deixaram de trabalhar no campo, nos últimos dez anos, o que representa um percentual de 30% de perda dos postos de trabalho na agricultura. E a tendência é a de que este número cresça ainda mais nos próximos anos.
‘‘São várias as razões do êxodo em direção à cidade’’, explica o presidente da Federação, Antônio Lúcio Zarantonello.‘‘A começar pela falta de uma política adequada no campo. Sem apoio técnico e financeiro, o agricultor passa a ser um aventureiro na atividade’’, diz. Segundo o presidente, os agricultores plantam sem saber os resultados, e quando um vizinho ou outra pessoa oferece um bom dinheiro pela propriedade, isso acaba decidindo a situação. Ele vende tudo e vai para a cidade atrás de uma melhor oportunidade.
Outro ponto, segundo Zarantonello, é a atuação do próprio sistema, que coloca ônibus escolares para buscar os filhos de agricultores para o estudo na cidade. ‘‘O jovem tem contato com os grandes centros, faz novos amigos, e acaba pensando que é muito melhor viver com as regalias da cidade do que ter uma enxada nas mãos. Desestimulados e mais velhos, os pais vendem a propriedade, mas não pensam que aqui não terão emprego’’, diz.
Já sobre o movimento contrário, de invasão do campo por homens urbanos, Zarantonello fala sobre uma tendência natural. ‘‘Assim como sentimos sede e buscamos água, ou sentimos fome e buscamos o alimento, também sentimos uma necessidade natural de estar em contato com o meio ambiente’’, explica ele. ‘‘A tecnologia, que no começo parece tão tentadora, passa a ser insuficiente, e a tranquilidade do campo, passa a ser vista como uma questão de saúde.

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