Silvana Leão
De Londrina
Bruno Rafael da Cruz nasceu com deficiência mental leve e, durante cinco anos, frequentou a escola de educação especial da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Ribeirão do Pinhal (57 km a oeste de Jacarezinho). No ano passado, ele passou por uma das experiências mais difíceis – e ao mesmo tempo mais gratificantes – de sua vida: foi submetido a avaliação e encaminhado para um estabelecimento de ensino regular.
Logo no primeiro dia de aula, Bruno, que aparentemente não demonstra seu problema e só encontra dificuldades para concentrar-se e manter uma linha de pensamento, foi motivo de brincadeiras preconceituosas entre os novos colegas. Num primeiro momento, sua reação foi procurar o ex-professor de educação física e pedir para voltar à Apae.
De uma conversa, porém, surgiu a idéia de convidar os novos companheiros para um jogo de bola dentro da antiga escola. Iniciava-se, então, uma grande transformação na mentalidade não apenas daquelas crianças que começavam a conviver com Bruno, mas de toda a população de 14 mil habitantes do município.
‘‘A partir daquele jogo nós fizemos todo um trabalho de integração, com gincanas, acampamentos, e acabamos expandindo a ação também para outras escolas. Isto foi suficiente para mudar a comunidade de uma maneira geral’’, afirma o ex-professor e grande amigo de Bruno, Daniel Golfieri de Oliveira. Mesmo falando pouco, o garoto garante que hoje já não enfrenta problemas no convívio com os colegas. E o melhor: ‘‘Não me chamam mais de ‘bobinho da Apae’’’.
Para o professor que o amparou no momento de dificuldade, Bruno foi responsável por algo que parecia impossível: acabar – ou pelo menos diminuir sensivelmente – com o preconceito existente inclusive entre os adultos. Por tamanha proeza, ele não teve dúvidas em inscrever seu ex-aluno no programa ‘‘Sonhadores do Milênio’’, uma iniciativa da rede McDonald’s e da Walt Disney Company, com apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
O programa tem o objetivo de reconhecer e premiar crianças e jovens – com idades entre 8 e 15 anos – que realizaram alguma ação em benefício de sua comunidade no ano de 1999. A experiência de Bruno da Cruz foi pré-selecionada entre cerca de 2 mil formulários enviados por crianças de todo o Brasil e escolhida entre 430 inscrições qualificadas. Ao final, restou um grupo de 40 brasileiros, que vão se juntar a mais 1960 crianças e adolescentes de outros 100 países no mês de maio, para participar como ‘‘Líderes do Amanh㒒 do Fórum Global a ser realizado em Orlando, na Flórida.
Ontem à tarde Bruno, meio encabulado, participou de entrevista coletiva no McDonald’s em Londrina, ao lado de mais dois paranaenses selecionados para viajar à Disney: Crisleane Aparecida Guimarães Norbiato, de 15 anos, e Stefani Luiza Aparecida Brassero, de 13 anos. Ao todo, o Paraná irá contar com seis representantes no Fórum Global.
‘‘Até agora não estou acreditando. Estou deixando para chorar quando chegar lᒒ, disse entusiasmada Crisleane Norbiato, que mora em Apucarana. Sua história, a exemplo da dos companheiros, é marcada por dificuldades. Filha de mãe solteira, aprendeu a conviver com as privações. Aos oito anos, diante da fome que rondava sua casa, passou a fazer pão de queijo para fora e, à sua maneira, passou a ajudar a mãe, que trabalha até hoje como manicure.
A vontade de ajudar os outros, porém, sempre foi uma marca da personalidade da garota. Além de ajudar em casa, ela percorria lojas de R$ 1,99 pedindo brinquedos quebrados, que consertava para doar a crianças carentes no dia 12 de outubro. Depois de algum tempo, intensificou suas arrecadações e nunca mais deixou de organizar festas no Dia das Crianças.
No final do ano passado, Crisleane e uma amiga entregaram brinquedos, doces, alimentos e roupas para creches de Londrina e Apucarana, como presente de Natal. A idéia de inscrever seu nome no programa ‘‘Sonhadores do Milênio’’ foi de uma cliente de sua mãe. ‘‘Sempre sonhei em conhecer a Disney antes dos 18 anos’’, revela a garota.
Já a insistência em participar da Marcha Popular para Brasília, organizada pelo Movimento dos Sem-Terra (MST) no ano passado, deu a Stefani Brassero, de Tamarana (60 km ao sul de Londrina) um reconhecimento inesperado. Ela estava participando com a mãe de um acampamento em Curitiba, quando ouviu falar da marcha. ‘‘Disseram que menores de idade não iam poder participar, mas eu insisti tanto que eles acabaram deixando, já que eu estava com minha mãe.’’
Stefani revela que queria conhecer de perto as idéias do MST. Desde pequena ela acompanha a mãe nas aulas que ministra a um grupo de jovens e adultos. A função da garota é chamada de ‘‘ciranda’’, uma espécie de recreação com as crianças menores que esperam as mães frequentarem as aulas.
Durante a marcha para Brasília, Stefani ficou conhecida como a mascote do grupo. Por este motivo, tornou-se o centro das atenções por onde o movimento passou. Aproveitando a deixa, ela passou a falar a todos que a procuravam sobre as necessidades dos sem-terra, passando a ser admirada pelos companheiros. Seu comportamento acabou dando ânimo também aos mais velhos.
Recentemente, em um encontro estadual em Foz do Iguaçu, ela foi homenageada pelo MST por seu empenho e dedicação. Qualidades que também foram ressaltadas pelo arcebisbo da Arquidiocese de Londrina, dom Albano Cavallin, no formulário de inscrição de Stefani no programa. Foi ele que fez a indicação da garota – pelo regulamento, um adulto que não tivesse parentesco com a criança deveria indicá-la. Dom Albano justificou-se dizendo: ‘‘Stefani Brassero é um nome já respeitado em nossa Igreja e nos movimentos sociais’’.Três dos seis adolescentes do Paraná escolhidos por um programa para participar de um fórum nos Estados Unidos foram apresentados ontem em Londrina
Milton DóriaFUTUROS LÍDERESStefani Brassero, Bruno da Cruz e Crisleane Norbiato: entre os 6 paranaenses selecionados no programaMilton DóriaBruno da Cruz driblou o preconceito para se integrar com os colegasMilton DóriaCrisleane Norbiato fortaleceu o sentimento de solidariedadeMilton DóriaStefani Brassero, reconhecida por falar das necessidades dos sem-terra