Pequenas conquistas diárias
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de abril de 2016
Aline Machado Parodi<br>Reportagem Local 
Cada pequena conquista de Vinícius, de seis anos, é motivo de alegria para sua mãe Renata de Souza Casagrande. "Hoje, ele já pega sozinho a garrafinha de água na geladeira", comemora. O menino sorridente é autista e frequenta as aulas do ensino fundamental na Apae de Londrina (zona leste).
Os primeiros sinais da doença foram percebidos quando ele estava com um ano e oito meses de idade. Na creche, os professores notaram que ele não interagia com as outras crianças, era muito agitado e começou a ficar agressivo. "Ele não falava e também não respondia quando chamávamos. Minha mãe chegou a achar que ele tinha problema de audição", conta Renata.
Foi durante uma consulta no Pronto Atendimento (PA), que a pediatra alertou para a possibilidade de Vinícius ser autista e orientou a mãe procurar um neurologista, que após descartar problemas físico, confirmou o diagnóstico.
Renata procurou informações sobre a doença e seguiu todas as orientações do médico. "Ele vai na fonoaudióloga, psicopedagoga e faz terapia ocupacional. Precisa de atenção 24 horas; como ele não tem noção de perigo e adora água, se deixar entra dentro da máquina de lavar roupa."
A mãe tentou mantê-lo na escola regular para que ele tivesse um modelo para se espelhar, mas no ano passado decidiu matriculá-lo na Apae. "Os profissionais (das escolas regulares) ainda não sabem com lidar com os autistas. Eles se frustravam que o Vinícius não estava aprendendo. Mas ele tem o tempo dele. Quero que aprenda, mas não é essa questão agora. Só o fato dele estar na escola já é importante", avalia Renata.
O aprendizado é diário para a mãe e para a criança. "É preciso ficar calma. É muita informação e é bom ter alguém para conversar." Vinícius é um dos quatro alunos da professora Fátima Aparecida dos Santos Faleiros e ela afirma que também é um aprendizado trabalhar com os autistas.
A Apae abriu no ano passado uma turma de educação infantil para autistas. E este ano está com uma turma de cinco alunos na infantil e quatro no ensino fundamental. A sala foi preparada para dar um atendimento individualizado. Ela tem pouco estímulo visual para a criança ter maior concentração; o currículo é adaptado e flexível. "A nossa intenção é trabalhar o comportamento da criança para auxiliar as famílias. O método que utilizamos é baseado em antecipar o que vai acontecer em cada momento da aula. Tudo que sai da rotina é muito difícil para o autista", explicou Daniela Von Stein, diretora da Apae.
DIAGNÓSTICO
Hoje é celebrado o Dia Mundial do Autismo, data criada em 2007 pela Organização das Nações Unidas (ONU) para conscientização acerca da doença. O diagnóstico ainda é muito complicado e existem poucos dados concretos, principalmente no Brasil, mas se estima que sejam 1,2 milhão de pessoas com autismo no país. O livro "Retrato do Autismo do Brasil", traz uma projeção que na região Sul seriam 169,7 mil.
Desde o começo da década de 2010, o manual de diagnostico de doenças mentais alterou a forma de categorizar o autismo. Antes ele podia ser leve, moderado, avançado. Agora, é tratado como Transtornos do Espectro do Autismo, que também inclui a Síndrome de Asperger. Para o psicólogo Luciano Carneiro, do Centro Ocupacional de Londrina e Escola Manain (COL), essa nova nomenclatura aumentou a dificuldade de chegar a um diagnóstico exato. "Acredito que essa ampliação fez com que mais pessoas procurem atendimento, mas não facilitou o diagnóstico. Mas procuramos fazer um diagnóstico prévio e começar a estimulação precoce", comentou. O COL atende 85 pessoas com doenças dos Transtorno de Espectro Autista.
O autismo ocorre cinco vezes mais em meninos do que em meninas. Para Carneiro ainda existe uma grande dificuldade das famílias lidarem com o "pré-conceito" das pessoas. "Elas veem uma criança gritando no mercado e já tem a concepção que se trata de uma criança mal educada e, às vezes, é um autista. A educação deles demanda tempo e as pessoas precisam entender. As famílias também precisam ensinar rotinas para eles, pois rotinas são extremamente importante para os autistas."
O psicólogo acredita que os autistas com bom desenvolvimento cognitivo e estimulados desde cedo possam ter uma autonomia na vida adulta. Para a mãe do Vinícius a maior preocupação é se o filho poderá ser independente. "Tenho medo do futuro. Se ele vai ter um trabalho, se vai encontrar alguém e casar."


