Pequena escritora ganha bolsa de estudos
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terça-feira, 05 de dezembro de 2006
Mariana Guerin<br>Reportagem Local 
São Paulo - A estudante Kelli Carolina Bassani, de Toledo, venceu o Prêmio Escrevendo o Futuro, organizado pela Fundação Itaú Social. A premiação foi entregue ontem à noite durante cerimônia no Memorial da América Latina, em São Paulo. O prêmio quer estimular a leitura e escrita de alunos de quarta e quinta séries do ensino fundamental das escolas públicas e a formação de professores de língua portuguesa, assinalou a superintendente da Fundação, Ana Beatriz Patrício.
Kelli concorreu no gênero memórias e seu texto O valetão que engolia meninos e outras histórias de Pajé desbancou outros seis candidatos de outros Estados brasileiros. O tema do concurso - que premiou também as categorias poesia e artigos de opinião - era o lugar onde vivo. Ao falar do lugar onde vive, a criança busca aprofundar o conhecimento da sua realidade, criando um sentimento de pertencimento. O resultado são retratos impressionantes sobre sua comunidade e seu papel dentro daquela realidade, completou Ana Beatriz.
O texto de Kelli conta a vida de um dos pioneiros da cidade de Toledo, Clóvis Turati, o Pajé, e sua influência na história da rua 7 de setembro, principal via da Região Central da cidade. O Pajé trabalhava como engraxate na rua 7 de setembro ainda quando criança. Sem tempo para brincar, ele e seus amigos só tinham folga quando chovia. Eles se escondiam nos seus caixotes nos fundos de uma bodega e faziam guerra de mamona num valetão que existia no início da rua. É sobre isso que fala o texto, explicou Kelli.
Além de resgatar a história da rua central de Toledo, Kelli trata da questão do trabalho infantil. A maior dificuldade dos alunos foi contar as histórias na primeira pessoa, linguagem usada quando se escreve um texto de memórias, ressaltou a professora Salete Conceição Assufi Dallanol, que trabalhou com a turma da quarta série do ensino fundamental da Escola Municipal Walter Fontana, onde Kelli estuda.
É difícil escrever na primeira pessoa e ainda assim ter de expressar sentimentos, magia, fantasia, que são os elementos mais importantes do texto de memórias, avaliou a professora Salete.
Para Kelli, a principal dificuldade encontrada ao produzir o texto foi ter de usar a imaginação para deixar a história mais interessante, disse. Aos 10 anos, ela adora ler, principalmente livros de suspense e aventura. Suas matérias favoritas na escola são matemática e história. Quando crescer, quero ser bióloga, contou a jovem escritora.
Outro estudante paranaense, Silvio Castanha da Silva, de Castro, concorreu na categoria poesia, com o poema que conta a história da cidade, intitulado Fuxico. Vencedor da semi-final de Curitiba, Silvio perdeu a premiação para a aluna Carla Marinho Xavier, de Macaé (RJ). Só de ter vindo para São Paulo já foi uma grande conquista, declarou o estudante, entretido com as fotos que fez na visita ao Zoológico durante a viagem para São Paulo.
Escrever poesia é fácil, difícil mesmo é texto de opinião, afirmou Silvio, confessando ser mais fã das aulas de educação física do que das de português.
Para a professora Vitória Mainardes Batista, da Escola Estadual Jardim das Araucárias, onde Silvio estuda, a troca de informações com outros professores durante as oficinas que antecederam a entrega do prêmio foi uma experiência enriquecedora. As crianças também puderam ter contato com um mundo bastante diferente da realidade
carente em que vivem.
Participação das escolas triplicou
Esta foi a terceira edição do prêmio que recebeu inscrições de 15.461 escolas de todo o País. Mais de 33,4 mil professores e cerca de 1,6 milhão de alunos participaram das oficinas de português durante o ano todo.
A superintendente da Fundação Itaú Social, Ana Beatriz Patrício, recordou que em março as escolas inscritas no programa Escrevendo o Futuro receberam um kit com três fascículos, cada um sobre um gênero de escrita. Os livros foram desenvolvidos com o intuito de orientar os professores nas oficinas em sala de aula.
Cada escola criou sua própria comissão julgadora e selecionou um texto, que foi inscrito na etapa regional. Na regional, os textos passaram pela análise da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) de cada Estado, quando foram selecionados os semifinalistas.
Participaram da fase final, 21 estudantes e seus professores. Além de Kelli e Carla, a estudante Joice Zilli da Silva, de Içara (SC), venceu na categoria artigo de opinião. As vencedoras foram contempladas com uma bolsa de estudos para o ensino superior e suas professoras ganharam uma bolsa para custeio de cursos de especialização. Já as escolas receberam livros, além de 10 computadores e uma impressora.
Ainda ontem foram homenageadas as alunas Ana Laura de Queiroz Sá, de Bauru (SP) e Camila Félix da Silva, de Crato (CE), no gênero opinião, e o estudante Vinicius Cardoso Pereira, de Uberlândia (MG), na categoria memórias.
Segundo Ana Beatriz, a premiação é uma das vertentes do programa e ocorre sempre nos anos pares. Em anos ímpares, acontece a formação de educadores, que participam de cursos de língua portuguesa à distância e planejamento de ações de ensino de leitura e escrita.
Em relação a 2004 houve um aumento de 50% no número de inscrições. Comparado à primeira edição, em 2002, a participação este ano foi três vezes maior, enumerou a superintendente, ressaltando que o programa é coordenado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e tem apoio do Ministério da Educação (MEC). (M.G.)
A repórter viajou a convite do evento.


