Depois de décadas de isolamento por estradas de chão, Doutor Ulysses, na Região Metropolitana de Curitiba, começou a ver a chegada do asfalto. As obras de pavimentação da PR-092, que liga o município a Cerro Azul, tiveram início nesta semana e prometem encerrar um longo ciclo de dificuldades logísticas, sociais e econômicas. A previsão é que os 11,95 quilômetros da estrada sejam concluídos até 2026. Com isso, o Paraná terá apenas uma cidade sem ligação rodoviária asfaltada: Guaraqueçaba, no Litoral.

O investimento de R$ 56,9 milhões do governo estadual prevê a construção de um pavimento semi rígido com alto padrão técnico, incluindo quatro camadas estruturais, sinalização, drenagem e defensas metálicas. Atualmente, os trabalhos estão concentrados na supressão vegetal e instalação de bueiros de concreto, etapas preliminares para a terraplanagem.

Doutor Ulysses, 17 de junho de 2025 - Pavimentação da PR 092.
Doutor Ulysses, 17 de junho de 2025 - Pavimentação da PR 092. | Foto: Roberto Dziura Jr.

O Vale do Ribeira, onde está localizado Doutor Ulysses, é historicamente uma das regiões com os menores índices de desenvolvimento econômico e social do Paraná. A pavimentação da PR-092 pode representar uma virada de chave para o município, que tem a economia ainda fortemente baseada na extração madeireira e no cultivo de poncã. A expectativa é que a nova rodovia facilite a chegada de investimentos, amplie o acesso a mercados e ajude a diversificar as atividades produtivas locais.

Para os cerca de 5,6 mil moradores de Doutor Ulysses, o início da obra representa um grande avanço de infraestrutura que deve gerar desenvolvimento econômico e acesso digno a serviços públicos essenciais. “Hoje o comércio local tem muita dificuldade com fornecedores. Os caminhões sofrem com o desgaste da estrada. Com o asfalto, tudo deve melhorar”, afirmou o comerciante Air de Souza Filho, em entrevista à Agência Estadual de Notícias.

Doutor Ulysses, 17 de junho de 2025 - Pavimentação da PR 092.
Doutor Ulysses, 17 de junho de 2025 - Pavimentação da PR 092. | Foto: Roberto Dziura Jr./AEN

Além dos impactos diretos na economia local, a pavimentação trará benefícios imediatos para a educação e a saúde. “Quando chove, os alunos não conseguem chegar à escola. Com o asfalto, o aprendizado não será mais prejudicado”, observou a professora Maria Otília Alves. Já o motorista escolar Antonio Lima destaca a segurança no transporte das crianças. “Agora que a gente viu as máquinas, dá para acreditar.”

Doutor Ulysses é o penúltimo município paranaense a conquistar uma ligação por asfalto. Antes dele, outros dois enfrentaram o mesmo desafio: Mato Rico, no Centro do Estado, e Coronel Domingos Soares, no Sul, só obtiveram acesso pavimentado recentemente. Coronel Domingos Soares, em 2021; e Mato Rico há pouco mais de um mês. As duas regiões também apresentam déficit de desenvolvimento.

Rodovia de acesso a Coronel Domingos Soares, na região de Palmas (Sul), foi asfaltada em 2021
Rodovia de acesso a Coronel Domingos Soares, na região de Palmas (Sul), foi asfaltada em 2021 | Foto: Ari Dias/AEN

‘Pleno desenvolvimento’

Localizada na região central do Estado, cercada por Pitanga, Roncador e Palmital, Mato Rico tem 3.267 habitantes e a agricultura familiar focada no cooperativismo como principal atividade econômica.

A pavimentação da PR-239, entre Mato Rico e Pitanga, foi entregue pelo governador Ratinho Junior no dia 14 de maio, tirando a cidade de um isolamento de quatro décadas. “Por muitos anos, os municípios da região central do Paraná foram esquecidos pelo Estado, mas nos últimos anos isso mudou, e quem se beneficia é a população de Mato Rico”, disse o prefeito Edelir Ribeiro na cerimônia de entrega da obra.

Com investimento de R$ 228,2 milhões, foram construídos 43,15 quilômetros de extensão para a pista, com duas faixas de tráfego e acostamentos externos em ambos os lados, além de um novo sistema de drenagem de águas, com bueiros, sinalização e dispositivos de segurança rodoviária.

Conforme a assessoria de imprensa da Prefeitura de Mato Rico, “o comércio está em pleno desenvolvimento com a chegada do asfalto”. A expectativa é que “várias cooperativas grandes da região central do Estado se instalem próximas ao município para gerar mais empregos e oportunidades”, além de contribuir com o escoamento da safra e a produção agrícola. Uma maior circulação de pessoas e melhor qualidade de vida para a população também são almejadas.

Outra pretensão é que o fim do isolamento gere aumento populacional, atraindo mato riquenses que moram em outros municípios. “Com a facilidade no acesso, o pessoal que foi embora para cidades grandes, como Londrina, Maringá e Campo Mourão, tem a oportunidade de voltar para morar perto de suas famílias”, pontuou.

A valorização da cidade promete fortalecer o comércio e turismo locais, refletindo na geração de empregos e no aumento da arrecadação, elencou a assessoria. Além disso, “com o melhor acesso, as pessoas vão ter mais opções de transporte, mais acesso a serviços de saúde e educação. A cidade está cada vez mais pronta para crescer, e agora tem caminho para isso”.

Mato Rico e Roncador, conectados por estrada de chão na PR-239, também terão seu trecho de ligação pavimentado, por meio de uma obra de R$ 101,2 milhões. Serão 19,89 quilômetros asfaltados, com duas faixas de tráfego ao longo de todo o trecho e acostamentos em ambos os lados da rodovia. O prazo de execução é de 20 meses contados a partir da ordem de serviço, assinada ainda no dia 14 de maio.

Pavimentação da PR-239 entre Pitanga e Mato Rico foi entregue em maio de 2025
Pavimentação da PR-239 entre Pitanga e Mato Rico foi entregue em maio de 2025 | Foto: Geraldo Bubniak / AEN

Guaraqueçaba e a questão ambiental

Com a pavimentação em andamento em Doutor Ulysses, Guaraqueçaba passará a ser o único município do Paraná ainda sem ligação asfáltica com o restante do Estado. Localizada em uma região de Mata Atlântica preservada, a cidade enfrenta entraves legais e ecológicos para qualquer intervenção viária. A principal via de acesso é a PR-405, uma estrada de chão com cerca de 80 quilômetros, que liga o município à PR-340, passando por Antonina. Em períodos de chuva, o trajeto se torna quase intransitável, exigindo veículos com tração. Apesar das dificuldades, ônibus intermunicipais e automóveis ainda conseguem circular pelo trecho.

Edital para anteprojeto da pavimentação da Estrada de Guaraqueçaba foi lançado recentemente
Edital para anteprojeto da pavimentação da Estrada de Guaraqueçaba foi lançado recentemente | Foto: DER/AEN

A alternativa mais estável, especialmente para visitantes, é o acesso por barco a partir de Paranaguá, em uma travessia de 1h30 a 2h. O isolamento geográfico e a fragilidade ambiental da região impõem cuidados redobrados. Por isso, qualquer projeto de pavimentação precisa ser precedido por estudos detalhados.

Depois de mais de cinco anos de debates, o projeto atual de pavimentação da PR-405 deu um passo em maio deste ano, com a publicação do edital para elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) e do anteprojeto de engenharia. O investimento previsto é de R$ 8,6 milhões. Os estudos irão avaliar os efeitos da obra sobre a vegetação nativa, a fauna, o solo, rios, áreas alagáveis, comunidades tradicionais e povos indígenas que vivem ao longo da estrada.

Entre as possibilidades em análise está a implantação de uma estrada-parque, solução que busca adaptar a rodovia ao relevo e à paisagem, reduzindo os impactos ambientais e favorecendo o turismo ecológico. O prazo de elaboração dos estudos é de 14 meses, podendo ser estendido conforme a tramitação junto aos órgãos ambientais.

Com informações da Agência Estadual de Notícias

mockup