Penúltima cidade ‘isolada’ do Paraná começa a ganhar ligação asfáltica
Com obra iniciada entre Doutor Ulysses e Cerro Azul, estado caminha para ter apenas um município ligado apenas por estrada de terra
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de junho de 2025
Com obra iniciada entre Doutor Ulysses e Cerro Azul, estado caminha para ter apenas um município ligado apenas por estrada de terra
Da Redação 

Depois de décadas de isolamento por estradas de chão, Doutor Ulysses, na Região Metropolitana de Curitiba, começou a ver a chegada do asfalto. As obras de pavimentação da PR-092, que liga o município a Cerro Azul, tiveram início nesta semana e prometem encerrar um longo ciclo de dificuldades logísticas, sociais e econômicas. A previsão é que os 11,95 quilômetros da estrada sejam concluídos até 2026. Com isso, o Paraná terá apenas uma cidade sem ligação rodoviária asfaltada: Guaraqueçaba, no Litoral.
O investimento de R$ 56,9 milhões do governo estadual prevê a construção de um pavimento semi rígido com alto padrão técnico, incluindo quatro camadas estruturais, sinalização, drenagem e defensas metálicas. Atualmente, os trabalhos estão concentrados na supressão vegetal e instalação de bueiros de concreto, etapas preliminares para a terraplanagem.

O Vale do Ribeira, onde está localizado Doutor Ulysses, é historicamente uma das regiões com os menores índices de desenvolvimento econômico e social do Paraná. A pavimentação da PR-092 pode representar uma virada de chave para o município, que tem a economia ainda fortemente baseada na extração madeireira e no cultivo de poncã. A expectativa é que a nova rodovia facilite a chegada de investimentos, amplie o acesso a mercados e ajude a diversificar as atividades produtivas locais.
Para os cerca de 5,6 mil moradores de Doutor Ulysses, o início da obra representa um grande avanço de infraestrutura que deve gerar desenvolvimento econômico e acesso digno a serviços públicos essenciais. “Hoje o comércio local tem muita dificuldade com fornecedores. Os caminhões sofrem com o desgaste da estrada. Com o asfalto, tudo deve melhorar”, afirmou o comerciante Air de Souza Filho, em entrevista à Agência Estadual de Notícias.

Além dos impactos diretos na economia local, a pavimentação trará benefícios imediatos para a educação e a saúde. “Quando chove, os alunos não conseguem chegar à escola. Com o asfalto, o aprendizado não será mais prejudicado”, observou a professora Maria Otília Alves. Já o motorista escolar Antonio Lima destaca a segurança no transporte das crianças. “Agora que a gente viu as máquinas, dá para acreditar.”
Doutor Ulysses é o penúltimo município paranaense a conquistar uma ligação por asfalto. Antes dele, outros dois enfrentaram o mesmo desafio: Mato Rico, no Centro do Estado, e Coronel Domingos Soares, no Sul, só obtiveram acesso pavimentado recentemente. Coronel Domingos Soares, em 2021; e Mato Rico há pouco mais de um mês. As duas regiões também apresentam déficit de desenvolvimento.

‘Pleno desenvolvimento’
Localizada na região central do Estado, cercada por Pitanga, Roncador e Palmital, Mato Rico tem 3.267 habitantes e a agricultura familiar focada no cooperativismo como principal atividade econômica.
A pavimentação da PR-239, entre Mato Rico e Pitanga, foi entregue pelo governador Ratinho Junior no dia 14 de maio, tirando a cidade de um isolamento de quatro décadas. “Por muitos anos, os municípios da região central do Paraná foram esquecidos pelo Estado, mas nos últimos anos isso mudou, e quem se beneficia é a população de Mato Rico”, disse o prefeito Edelir Ribeiro na cerimônia de entrega da obra.
Com investimento de R$ 228,2 milhões, foram construídos 43,15 quilômetros de extensão para a pista, com duas faixas de tráfego e acostamentos externos em ambos os lados, além de um novo sistema de drenagem de águas, com bueiros, sinalização e dispositivos de segurança rodoviária.
Conforme a assessoria de imprensa da Prefeitura de Mato Rico, “o comércio está em pleno desenvolvimento com a chegada do asfalto”. A expectativa é que “várias cooperativas grandes da região central do Estado se instalem próximas ao município para gerar mais empregos e oportunidades”, além de contribuir com o escoamento da safra e a produção agrícola. Uma maior circulação de pessoas e melhor qualidade de vida para a população também são almejadas.
Outra pretensão é que o fim do isolamento gere aumento populacional, atraindo mato riquenses que moram em outros municípios. “Com a facilidade no acesso, o pessoal que foi embora para cidades grandes, como Londrina, Maringá e Campo Mourão, tem a oportunidade de voltar para morar perto de suas famílias”, pontuou.
A valorização da cidade promete fortalecer o comércio e turismo locais, refletindo na geração de empregos e no aumento da arrecadação, elencou a assessoria. Além disso, “com o melhor acesso, as pessoas vão ter mais opções de transporte, mais acesso a serviços de saúde e educação. A cidade está cada vez mais pronta para crescer, e agora tem caminho para isso”.
Mato Rico e Roncador, conectados por estrada de chão na PR-239, também terão seu trecho de ligação pavimentado, por meio de uma obra de R$ 101,2 milhões. Serão 19,89 quilômetros asfaltados, com duas faixas de tráfego ao longo de todo o trecho e acostamentos em ambos os lados da rodovia. O prazo de execução é de 20 meses contados a partir da ordem de serviço, assinada ainda no dia 14 de maio.

Guaraqueçaba e a questão ambiental
Com a pavimentação em andamento em Doutor Ulysses, Guaraqueçaba passará a ser o único município do Paraná ainda sem ligação asfáltica com o restante do Estado. Localizada em uma região de Mata Atlântica preservada, a cidade enfrenta entraves legais e ecológicos para qualquer intervenção viária. A principal via de acesso é a PR-405, uma estrada de chão com cerca de 80 quilômetros, que liga o município à PR-340, passando por Antonina. Em períodos de chuva, o trajeto se torna quase intransitável, exigindo veículos com tração. Apesar das dificuldades, ônibus intermunicipais e automóveis ainda conseguem circular pelo trecho.

A alternativa mais estável, especialmente para visitantes, é o acesso por barco a partir de Paranaguá, em uma travessia de 1h30 a 2h. O isolamento geográfico e a fragilidade ambiental da região impõem cuidados redobrados. Por isso, qualquer projeto de pavimentação precisa ser precedido por estudos detalhados.
Depois de mais de cinco anos de debates, o projeto atual de pavimentação da PR-405 deu um passo em maio deste ano, com a publicação do edital para elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) e do anteprojeto de engenharia. O investimento previsto é de R$ 8,6 milhões. Os estudos irão avaliar os efeitos da obra sobre a vegetação nativa, a fauna, o solo, rios, áreas alagáveis, comunidades tradicionais e povos indígenas que vivem ao longo da estrada.
Entre as possibilidades em análise está a implantação de uma estrada-parque, solução que busca adaptar a rodovia ao relevo e à paisagem, reduzindo os impactos ambientais e favorecendo o turismo ecológico. O prazo de elaboração dos estudos é de 14 meses, podendo ser estendido conforme a tramitação junto aos órgãos ambientais.
Com informações da Agência Estadual de Notícias


