'Pensei em ficar mais bonita. Agora não sei se vale a pena'
Pensei em ficar mais bonita.
Agora não sei se vale a pena
A fala mansa em voz baixa não esconde a vergonha. Os olhos castanho-claros expressivos são mantidos sempre baixos. A.M.D.S., 22 anos, sente-se culpada.
O crime? Ser bonita e ter atraído a atenção do patrão. Com sua recusa em aceitá-lo sexualmente, A.M.D.S. perdeu o emprego de recepcionista em um escritório em Londrina. Um paraíso para quem veio da zona rural, foi empregada doméstica e, com muito esforço, está conseguindo terminar o ensino fundamental e fazendo um curso básico de informática.
A.M.D.S. não é do tipo que poderia ser classificado como mulherão. Morena, estatura média, tem talvez três ou quatro quilos a mais do peso ideal. Os cabelos, ondulados, são de comprimento médio, pelos ombros. A boca larga e o sorriso que raramente aparece durante a entrevista forma duas covinhas encantadoras. Os dentes, porém, atestam sua origem humilde. Eu pensava em arrumá-los, por aparelho, ficar mais bonita. Mas agora não sei. Será que vale a pena?, questiona.
A incerteza está diretamente ligada à vergonha que sente por ter sido demitida do serviço que adorava. Religiosa, A.M.D.S. faz a conexão entre o fato de ser bonita e a perda do emprego, porém sem analisar a culpa do patrão em assediá-la. Se eu não fosse bonita, ele nem olharia para mim e eu podia estar trabalhando lá até hoje, arrisca.
O assédio por parte do patrão começou quatro meses depois que A.M.D.S. começou a trabalhar no escritório. No final da tarde, o patrão pediu para que A.M.D.S. ficasse até mais tarde: Depois da gente ter trabalhado um pouco, ele passou a mão nos meus cabelos e disse que eram macios e cheirosos, relembra. Assustada, a garota não reagiu.
A partir daí, porém, qualquer motivo era desculpa para que o patrão a tocasse nos cabelos, nos ombros e em qualquer outra parte do corpo. Eu não sabia o que fazer. Se dissesse que não queria aquilo, ele podia me mandar embora. Aliás, ele vivia falando que emprego tava difícil, que eu devia estar contente por tem um trabalho tão bom. E eu ficava quieta, com medo, diz. Pouco tempo depois, as sutilezas do chefe acabaram.
Ele chamou na sala dele e me perguntou se eu gostava do serviço. Quando respondi que sim, ele me disse que, se quisesse continuar trabalhando ali, teria que fazer tudo o que ele queria, lembra. Para A.M.D.S. foi o fim de tudo. Como eu me recusei a fazer sexo com ele, na mesma hora me mandou embora. Só voltei lá para fazer o acerto e levei uma amiga que ficou comigo, conta.
A.M.D.S. não quis entrar na Justiça contra o ex-patrão. Para ela, seria uma vergonha todo mundo ficar sabendo. Depois fiquei sabendo que ele tinha feito a mesma coisa com outra moça e que ela entrou na Justiça. Mas não deu em nada. Como eu, ela não tinha provas. E ele contou um monte de mentiras sobre a moça. Ninguém acredita na gente. A culpa é sempre nossa, aponta. (T.E.)





