PELOTÃO ESPECIAL - Tensão constante na fronteira
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sábado, 17 de outubro de 2009
Wilhan Santin Enviado a Tabatinga (AM) 
Tabatinga (AM) - Às 3h do feriado de 7 de setembro, pessoas desesperadas gritavam na porta da casa de Edir Paulino da Silva Filho, jovem tenente do Exército Brasileiro, de 26 anos. O pedido era de socorro. Um rapaz da comunidade de Vila Bittencourt, lugarejo de 500 habitantes que cresceu ao redor de um pelotão especial de fronteira, no oeste do Amazonas, havia se ferido com uma faca depois de uma briga com a namorada. Tenente mobiliza o médico de seu pelotão para atender ao infortunado amante.
Essa história é um exemplo das dificuldades que o Brasil tem para proteger seus 11 mil km de fronteira em território amazônico, onde todas as distâncias são gigantescas e a presença do Estado, na maioria das vezes, resume-se aos homens de farda verde-oliva, espalhados por 28 pelotões, quase todos isolados.
Em Vila Bittencourt, na margem esquerda do rio Japurá, que separa o Brasil da Colômbia, próximo à região conhecida como ''Cabeça do Cachorro'', já houve embates que resultaram em mortes - para os dois lados - do Exército Brasileiro com guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Não há por ali qualquer aparato do governo estadual, como Polícia Civil ou Militar, nem da prefeitura de Japurá, município ao qual pertence a Vila.
Mas não é difícil entender por que o poder municipal não chega à fronteira. Os municípios do Amazonas têm dimensões de estados. Os 5.281 habitantes de Japurá estão espalhados por 55,7 mil km2 de território, enquanto Londrina tem 500 mil habitantes distribuídos por 1,6 mil km2. Até o posto da Polícia Federal, que um dia funcionou em Bittencourt, está às moscas. A fiscalização sobre o tráfico de drogas também fica a cargo do Exército.
Mineiro de Juiz de Fora, o tenente Paulino foi parar em um pelotão de fronteira por vontade própria. Deixou Ponta Grossa (Campos Gerais) há sete meses, onde servia na 5 Brigada de Cavalaria Blindada, para trabalhar a 3,3 mil km da cidade paranaense onde morava. Filho de militar, o rapaz diz que o isolamento está sendo a sua realização profissional.
Chamado de ''prefeito'' pelos moradores locais, ele conta que cada vez chega mais gente à vila. Os moradores da floresta são atraídos por algumas comodidades, como a energia que vem de uma pequena termoelétrica e a água tratada.
Ao melhor estilo militar, o tenente se esquiva das perguntas sobre a presença das Farc na região e também não confirma o número exato de homens - em torno de 70 - que comanda. ''Não me complique, não.'' Mas para falar de seus soldados, a maioria de origem indígena, ele solta o verbo. ''São os melhores com quem já trabalhei até hoje. Portam-se muito bem na selva. Os mosquitos que tanto incomodam os que não são daqui, passam despercebidos para eles.''
Embora Paulino desconverse sobre os perigos da fronteira, é impossível esconder certo clima de tensão que paira sobre as casamatas ou guaritas onde há sempre pelo menos um soldado de fuzil nas mãos 24 horas por dia. Mesmo com os problemas de orçamento do Exército, no pelotão de Vila Bittencourt a munição é farta e há equipamento para artilharia antiaérea.
Neste ano as sirenes, acionadas somente em caso de iminente perigo e que implicam na mobilização de toda a tropa, já soaram três vezes. ''Estava de plantão em uma das ocasiões. Quatro homens se aproximavam numa embarcação pequena. Era noite. Na escuridão que faz na beira do rio não se enxerga um palmo à frente. Eles foram embora em seguida'', conta o soldado Francisco Vitor da Silva, 21.
A tensão não é por acaso. Em 2002, cinco ocupantes de um barco que descia o rio Japurá abriram fogo contra os brasileiros quando foram abordados. Os soldados revidaram, acertando os inimigos. O barco virou e os corpos nunca foram encontrados. A suspeita é de que os homens seriam integrantes das Farc.
Em 1991, às margens do rio Traíra, a 45 km de Bittencourt, 17 homens do Exército foram surpreendidos, enquanto almoçavam, por 40 homens das Farc. Três soldados morreram e outros nove ficaram feridos. Cada cena daquele episódio ainda vive na memória do cabo Raimundo Pevas, 37, que hoje serve no 8º Batalhão de Infantaria de Selva de Tabatinga-AM. Ele foi feito refém pelos colombianos.
Muito tímido, narra os fatos. ''Eram 11h40. Estávamos comendo. Eles mataram primeiro os dois sentinelas e, em seguida, atiraram contra nós, matando mais um colega. Depois perguntaram quem era o comandante, que estava ferido na perna. Havia com a gente dois garimpeiros colombianos que tínhamos capturado um dia antes em território brasileiro. Os garimpeiros saíram correndo e também foram mortos. Fomos amarrados e levaram todas as nossas armas. O resgate só chegou três dias depois.''
Após o episódio, forte aparato do Exército foi deslocado para as margens do Traíra. Não há confirmação oficial, mas sem se identificar alguns militares contam que teve vingança, com brasileiros entrando no território colombiano e matando pelo menos sete homens das Farc.


