PELOTÃO ESPECIAL - Conforto no meio da selva
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sábado, 17 de outubro de 2009
Wilhan Santin<br> Enviado a Tabatinga (AM) 
Tabatinga (AM) Para o Exército, um pelotão especial de fronteira é um lugar onde seus homens estão em missão real 24 horas por dia. Para o povo que vai deixando a floresta e construindo casas ao redor dos pelotões, trata-se de um lugar onde é possível viver com um pouquinho mais de conforto.
Os militares que moram em Vila Bittencourt são oriundos de todos os cantos do Brasil. Eles passam um tempo na fronteira, em torno de dois anos, antes de seguir a missão em algum outro lugar. Como compensação financeira pelo isolamento recebem adicionais e conseguem fazer uma poupança.
Sargentos e oficiais moram em casas de alvenaria, todas cercadas de telas - há uma forte epidemia de malária na região -, com ar-condicionado, antena parabólica e internet via satélite.
Cabos e soldados se misturam aos outros moradores, residindo em casas mais humildes. O aspecto geral é de uma vida muito simples. Não há absolutamente nada de luxo nem de supérfluo. Boa parte dos moradores civis são índios ou tem ascendência indígena. Alguns desfrutam de TV e de mobiliário. Em outros lares, o mobiliário se resume a redes.
Os índios que moram na vila fazem de tudo para faturar algum trocado. Uma das mulheres que conversou com a FOLHA quis cobrar pela entrevista. Outra, Maria Rosa da Silva, 50 anos, quis vender, por R$ 20, dois filhotes de periquitos recém-capturados. A eles, o dinheiro se restringe aos R$ 102 mensais provenientes do Bolsa Família, do governo federal. Dinheiro que fica integralmente em um dos mercadinhos da vila para o pagamento das compras.
Cuidamos de sete alunos aqui. O dinheiro da bolsa não dá nem para comprar cadernos, reclama o marido de dona Maria, Eduardo Munico da Silva, 51, fazendo referência aos sete índios da aldeia Maku, que fica a 16 km do pelotão, e que moram em Vila Bittencourt para estudar.
Eduardo exibe identidade brasileira, mas veste uma camiseta que faz propaganda de um candidato a vereador de uma cidade colombiana. Já votei nas eleições de lá, mas o candidato disse que ia me ajudar e depois não me deu nada, conta, evidenciando semelhanças entre as eleições nos dois países.
Os produtos vendidos nos mercados locais chegam de barco de Manaus, a mil km de distância, ou da cidade colombiana de Letícia, a 300 km. Um quilo de carne vermelha sai por R$ 19, uma cabeça de repolho por R$ 6. Uma lata de cerveja, gênero dos mais vendidos, custa R$ 3; já um quilo de surubim, peixe típico da Amazônia, sai por R$ 4, mais barato do que um litro de óleo vegetal: R$ 4,50.
Para as mulheres dos militares sobra a missão de trabalhar na comunidade. Várias se tornam professoras e as que tem alguma formação na área de saúde trabalham no posto local. É sofrido ficar na beira de um rio, em meio à selva, enfrentando temperaturas de 40ºC.
Todas querem voltar logo para a cidade natal. Mas também admitem que acabam gostando, de alguma forma, da vida no começo - ou no fim, dependendo do ponto de vista - do Brasil. Aqui aprendi o que é solidariedade, aprendi a dar valor às pequenas coisas, comenta a brasiliense Maria Helena Gomes, 33, mãe de Victor, 5, e esposa do sargento Giancarlo. A família está de mudança para Fortaleza (CE), onde os aguardam uma nova missão. (W.S.)


