A Folha incia hoje uma série de reportagens sobre as ferrovias do Paraná. A nossa viagem começa mostrando a situação de alguns dos trechos mais problemáticos. Foram dois meses de levantamentos, com colaboração da América Latina Logística (ALL), que detém a concessão das ferrovias desde 1996 pelo prazo de 30 anos.


Trilhos desgastados na Serra do Mar e RMC

A repórter Andréa Bordinhão e o repórter fotográfico José Suassuna fizeram uma viagem de seis horas pela ferrovia da Serra do Mar, que liga Curitiba ao Litoral, e andaram a pé cerca de dois quilômetros por trechos ferroviários de Almirante Tamandaré e de Itaperuçu (cidades da Região Metropolitana de Curitiba - RMC).
Na estação Iguaçu, em Curitiba, de onde sai boa parte dos trens de carga da América Latina Logística (ALL) e de onde a reportagem da Folha embarcou para a Serra do Mar, no dia 13 de dezembro do ano passado, foi possível encontrar parafusos soltos no meio dos trilhos e moradores da região atravessando o local, pulando entre os vagões.
Em uma pequena parada, na estação abandonada Véu de Noiva, no meio da Serra, a situação é a mesma encontrada nos dois trechos da RMC. Dormentes sem parafusos e mato na pista. Em Itaperuçu, foi possível achar ainda trilhos muito desgastados. Peças encontradas na beira das ferrovias (tanto na Serra quanto em Almirante Tamandaré) também representam um perigo. Como não há ninguém cuidando delas, viram alvo fácil de pessoas má intencionadas que as colocam no meio dos trilhos, podendo causar assim um acidente.



Maior entroncamento tem problemas graves

Pátio de manobras da América Latina Logística (ALL) em Ponta Grossa, bairro de Uvaranas. O local, que detém o título de ser o maior entroncamento rodoferroviário da América Latina, foi o ponto de partida da repórter Adriana Savicki e do repórter fotográfico Carllos Bozelli. Depois de quase uma década de privatização, a realidade hoje não é das melhores. Dormentes podres, trechos inteiros desativados, estações e prédios ruindo ou ocupados irregularmente, ''cemitério'' de vagões, denúncias e muitos questionamentos sobre a fiscalização e o modelo de privatização adotado.
Já na entrada do entroncamento percebe-se a falta de segurança e o abandono. Mato alto entre os trilhos, poucos funcionários circulando e, pelo menos nas duas horas que a reportagem esteve lá, nenhum segurança. Mas são alguns quilômetros à frente que a situação fica bastante pior.
Na saída para São Paulo, a menos de três quilômetros da estação, o retrato da estrada são dormentes podres, mato e lastro (proteção de pedras) desnivelado em vários pontos. Mas são os dormentes - a madeira que dá o apoio aos trilhos - que inspiram maiores cuidados. Nesse trecho, antecedido por uma ponte de aproximadamente 50 metros de altura, pelo menos 45% dos dormentes estão podres.
Os desgastados sinais amarelos pintados na madeira indicam que a equipe de manutenção da ALL já avaliou a necessidade de troca do equipamento há algum tempo. A fragilidade é tanta que os passos de uma pessoa adulta sobre a madeira têm a capacidade de movimentar as estruturas que precisam suportar toneladas de peso. Além da precariedade e desgaste do material, outro problema frequente é a falta de parafusos tanto nos dormentes como nas talas de junção dos trilhos -
placas que unem as duas estruturas.



Norte também está em péssimo estado

Passagem de nível da entrada da Colônia Esperança, zona rural de Arapongas. Outro trecho escolhido pela reportagem da Folha apresenta praticamente os mesmos problemas. Funcionários da Amércia Latina Logística (ALL), afirmam que o trecho Londrina/Apucarana é um dos piores da região.
Em cerca de 1,5 km percorrido é fácil de perceber o porquê. Os dormentes podres podem representar até 30% do total.
A situação é pior exatamente na passagem de nível. O escoamento inadequado das águas da chuva e a consequente umidade em excesso deixam um charco constante nos trilhos. Pelo menos seis já sumiram. As marcações de tinta feitas pela própria ALL evidenciam a necessidade da troca que chegou a ser realizada em alguns trechos.
Durante o percurso, existem três dormentes novos. Todos ao lado de estruturas completamente comprometidas e com as marcas da ALL, o que leva a crer que o que foi substituído estava ainda pior e suscita o questionamento de por que a manutenção só atingiu uma parcela tão pequena dos problemas.
Nos pontos visitados, os trilhos não têm mais todos os equipamentos de fixação indicados na cartilha de manutenção da Rede Ferroviária Federal (RFFSA). A manutenção da concessionária também é diferente em outros pontos, como a qualidade dos dormentes através da ausência do tratamento da madeira.
Tratado com produtos químicos para aumentar a resistência, o dormente padrão usado pela RFFSA tinha uma vida útil de, no mínimo, 16 anos. Sem o tratamento, a durabilidade cai para 6 anos. Um escolha técnica questionável para uma malha com evidentes problemas de manutenção. (A.S.)



ALL RESPONDE
Equipamento é utilizado até limite de segurança

"Usamos nosso equipamento até o limite de segurança e depois trocamos. Nossa norma de manutenção é a mesma da RFFSA'', afirmou o gerente de via permanente da ALL, Plínio Tocchetto, rebatendo as acusações de que a empresa não faz manutenção adequada nos trechos. ''As pessoas comparam com o tempo da Rede, quando tinha muita gente e pouco método. Hoje eu tiro o material que for necessário. Só troco o dormente que for necessário'', argumentou.
O gerente de via permanente da ALL garantiu que a empresa trabalha com segurança, sem equipamentos sucateados. ''Não antecipo nada. A gente leva até a medida de desgaste máximo'', comentou.
Quanto aos problemas encontrados pela reportagen em alguns trechos, que depois foram endossados como comuns em toda a malha por maquinistas que trabalham na empresa, Toccheto alegou que são casos pontuais. ''Alguns dormentes podem ser ruins, pode-se admitir um certo porcentual de parafusos soltos, mas posso garantir que a falta de parafuso não é normal'', afirmou.
Toccheto afirmou que só nos 100 quilômetros do trecho da Serra do Mar a ALL possuiu cerca de 100 homens todos os dias trabalhando na manutanção de via. (A.B.)

As repórteres Andréa Bordinhão (A.B.) e Adriana Savicki (A.S.), acompanhadas dos repórteres fotográficos José Suassuna e Carllos Bozelli, estiveram na Serra do Mar, em Almirante Tamandaré e Itaperuçu, no pátio de manobras de Ponta Grossa, em trechos que ligam
o Paraná ao estado de São Paulo, além da ligação Londrina a Apucarana. Foram dois meses de levantamento, entrevistas com especialistas, ex-funcionários da Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA), moradores próximos às linhas e funcionários da ALL.

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