PELAS 'BANCAS' DA CIDADE Camelô investe 1 milhão na Zona Norte
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quarta-feira, 18 de abril de 2007
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
A enorme estrutura que vai ganhando corpo num dos trechos mais nobres da Avenida Saul Elkind, coração da Zona Norte de Londrina, em nada lembra as banquinhas precárias em que ainda se vendia fitas k7 ao redor do Terminal Central, uma década atrás. A ligação entre uma e outra, porém, está no nome do futuro shopping: ''Camelô 5incão''. E também no dono do empreendimento: Ulisses Sabino, um dos pioneiros do Camelódromo Central.
Localizado em frente ao maior supermercado da região e a poucos metros do terreno onde um shopping center será construído, o Camelô 5incão já está com quase todas as lojas vendidas. São 54 unidades na primeira fase da obra, com entrega prevista para o final do mês que vem, e outras 51 que deverão ser ofertadas para locação a partir de setembro. Segundo Sabino, o investimento é de R$ 1 milhão.
De camelô nas ruas de Londrina a investidor num empreendimento milionário, Sabino é a personificação de um fenômeno maior. O comércio informal, antes visto como socorro à miséria e ao desemprego, tornou-se um negócio institucionalizado e altamente lucrativo. Prova disso é a explosão de galerias populares no Centro da cidade, onde já existem pelo menos sete - cinco delas abertas de um ano para cá.
Os espaços agora são mais amplos, mais iluminados. O perfil de parte dos comerciantes também mudou; não está mais restrito aos pobres, desempregados e de baixa escolaridade.
No recém-inaugurado Camelódromo Central, no Calçadão, a reportagem encontrou uma loja de DVDs piratas comandada pelo funcionário de uma multinacional. Sua filha contou que ele decidiu abrir o negócio porque viajava a trabalho uma vez por semana e no resto do tempo ''ficava à toa, em casa''. A jovem ajuda o pai com as vendas, mas diz que pretende largar o trabalho assim que conseguir uma vaga no curso de fisioterapia.
No mesmo corredor, uma ex-psicológa abriu uma loja de produtos de informática e papelaria, ''tudo legalizado e com nota fiscal'', garante. ''Fechei meu consultório há três anos, quando meu marido foi ferido num assalto e tive que cuidar dele. Com duas crianças pequenas, ficou difícil voltar para o mercado. Essa loja é uma tentativa de melhorar a renda familiar'', afirma a proprietária, que tem como sócia a irmã, professora.
Maioria ou não, ainda há muitos que enveredam pelo comércio informal por falta de emprego com carteira assinada. Leandro (nome fictício), 24 anos, pai de duas crianças, revela que entrou na leva de demissões de uma distribuidora de auto-peças, ficou um ano procurando emprego e acabou aceitando uma vaga numa loja de camelódromo. ''Tiro uns R$ 450,00 e nem sempre dá para cobrir as despesas da família. Mas meu patrão me ajuda muito, adiantando dinheiro quando a coisa aperta'', ressalta o vendedor, hoje na Galeria Benjamin.
Ainda que os ''camelôs'' tenham alcançado um novo patamar no mercado, Ulisses Sabino defende que o setor ainda é a única oportunidade de geração de renda para a população mais pobre e por isso adianta: não vai se opor à venda de produtos piratas no Cincão.
''Falam tanto nos tais 'direitos autorais', mas e o direito do cidadão de sobreviver? Meu irmão morreu assaltado, perdi minha mãe porque ela ficou esperando atendimento num hospital público e eu só tinha R$ 2,00 no bolso, não podia transferi-la para um particular. O País tem mais com que se preocupar. Não me pesa a consciência deixar o cidadão fazer o CDzinho dele e ganhar um dinheiro'', manifesta.


