"O sistema de cotas não diminuiu a qualidade do ensino; todos esses alunos entraram na universidade por mérito", afirma a coordenadora do Neab, Maria Nilza da Silva
"O sistema de cotas não diminuiu a qualidade do ensino; todos esses alunos entraram na universidade por mérito", afirma a coordenadora do Neab, Maria Nilza da Silva | Foto: Saulo Ohara



O sistema de cotas da Universidade Estadual de Londrina (UEL) passa por uma nova avaliação - a segunda desde que foi implantado, em 2004. Os debates começaram em 18 de janeiro e irão subsidiar as comunidades interna e externa e os membros do Conselho Universitário (CU) na votação sobre o formato e a continuidade do sistema, ainda sem data para ocorrer. Mas nas discussões ocorridas até aqui foram apresentados relatórios que deixam evidente a eficácia da medida no processo de inclusão de estudantes de escolas públicas e negros no ensino superior gratuito. Nos últimos anos, cresceu o número de cotistas e a taxa de evasão entre eles é menor do que a verificada no sistema universal. Os índices de rendimento escolar também não apontam para uma disparidade entre cotistas e não cotistas. Mas há um entendimento de que após a consolidação do sistema, os esforços agora devem ser direcionados para aumentar as políticas de permanência na universidade.
"Nosso entendimento é que (o sistema de cotas) está funcionando e poderia se manter como é hoje. Até o ranking da UEL tem melhorado ano a ano por causa do sistema de cotas. Mas as políticas de inclusão não são só as políticas de acesso, mas também as de permanência e essas devem melhorar. O acesso à universidade é fundamental, mas também é fundamental dar condições para que esses estudantes possam ter sucesso na sua trajetória acadêmica", aponta a coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UEL, Maria Nilza da Silva.
A UEL oferece a Casa do Estudante, bolsas de iniciação científica e de iniciação à docência e apoio pedagógico para aqueles alunos que enfrentam dificuldades em alguma disciplina. Mas Maria Nilza defende uma política mais efetiva de permanência na universidade como parte da política de inclusão. "É preciso suprir as necessidades econômicas, pedagógicas e psicossociais dos alunos. As políticas de acesso e permanência estão junto com a política afirmativa e não só destinadas aos alunos cotistas, mas a todos os alunos da universidade, já que os índices de evasão são até maiores entre os estudantes que ingressaram pelo sistema universal", destacou a coordenadora do Neab.
Um levantamento feito pela Pró-reitoria de Graduação (Prograd) da UEL mostra que dos alunos que ingressaram na universidade em 2015 pelo sistema universal, 90,1% permaneciam matriculados em 2016; pelo sistema de cotas para escola pública o índice era de 91,3%; e entre os negros, 92,5%, apontando maior evasão no sistema universal. Quando analisados os mesmos percentuais entre 2014 e 2016, os índices são de 80%, 84% e 85%, respectivamente. Nos dois recortes, os cotistas apresentam índices menores de desistência. Em 2016, entre os estudantes ativos, a UEL contabilizava 8.318 alunos que ingressaram pelo sistema universal, 3.060 tiveram acesso à universidade pelas cotas para escola pública e 820 pelas cotas para negros. Os indígenas somavam 33 alunos.
"É preciso desmistificar a ideia de privilégio, de vantagem. Os cotistas têm uma compensação da desvantagem de terem estudado em escola pública, da baixa condição socioeconômica e de ter de trabalhar para manter os estudos. E mesmo com todas essas desvantagens, quando analisamos a média das notas entre os cotistas e os não cotistas, a oscilação é de apenas 0,3 ponto", disse o diretor de Assuntos Acadêmicos da Prograd e presidente da Comissão de Acompanhamento e Avaliação do Sistema de Cotas na UEL, Adriano Luiz da Costa Farinasso.
"Nesse momento nós temos um sistema de cotas que realmente inclui pessoas que estariam excluídas se não houvesse o sistema de cotas. Eu acho que hoje a UEL está mais coerente com a realidade da sociedade brasileira e por isso ela está melhor", afirmou Maria Nilza, que aponta como uma das maiores conquistas da política de cotas a oportunidade de acesso a cursos mais concorridos nos quais a maioria dos estudantes era oriunda de escolas particulares. "Hoje você tem a oportunidade de todos os segmentos sociais brasileiros terem vagas na UEL e de qualidade. O sistema de cotas não diminuiu a qualidade do ensino. Todos esses alunos entraram na universidade por mérito."
O sistema de cotas foi implantado na UEL em 2004 e convalidado em 2011, quando o Conselho Universitário aprovou a reserva de 40% das vagas oferecidas em concursos vestibulares destinadas para candidatos de escolas públicas e, deste total, 50% para candidatos que se autodeclarem negros. A UEL foi uma das pioneiras a implantar esta política, juntamente com as universidades estaduais do Rio de Janeiro, Universidade de Brasília (UnB) e Universidade do Estado da Bahia. (Leia mais na pág.2)

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