Pela hora da morte
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segunda-feira, 16 de setembro de 2002
Sid Sauer<BR>Equipe da Folha 
Campo Mourão - Eram 3 horas da madrugada e Josué cochilava na recepção do hospital, quando a enfermeira lhe cutucou para comunicar o falecimento do avó dele. A fatídica notícia já era esperada pela família. Aos 87 anos, o pobre aposentado estava há dias em coma, já desenganado pelos médicos. O que o consolado Josué não esperava era o trabalhão que teria nas próximas horas para providenciar o enterro do avô.
Do hospital, Josué correu para a funerária. Estava a pé, mas eram apenas três quadras de distância. A funerária estava aberta, porém o funcionário logo lhe desanimou. ''Aqui é só nosso escritório. Isso é lá na Central Funerária, no cemitério'', avisou o rapaz com cara de sono. Como o cemitério fica do outro lado da cidade, Josué preferiu ir para casa pegar a bicicleta. Naquela hora não havia ônibus. E ele não tinha dinheiro para o táxi.
E lá se foi Josué cortando a cidade com sua Monark barra dupla circular. Na central, ele comunicou a morte ao servidor de plantão e escolheu o caixão. Optou pela urna mais barata: R$ 313,00. ''O pagamento é lá na funerária'', avisou o plantonista. E lá se foi Josué atravessar a cidade novamente. Pagou a metade à vista por sorte havia recebido o salário dois dias antes e assinou uma promissória para quitar o resto em 60 dias.
Eram 4h50 da madrugada e Josué agora estava batendo na casa do presidente da associação de moradores do bairro. Precisava da chave do salão comunitário para o velório. Menos mal que deu certo. Ufa! Mas Josué ainda não pôde descansar. Amanheceu e lá foi ele ao cartório em busca da certidão de óbito. ''Falta o cartão da aposentadoria. Sem trazer o cartão a gente não pode emitir a certidão'', avisou o atendente.
Josué voltou para casa e, de lá, foi para a residência do falecido avô. Teve que revirar todo o quarto dele à procura do dito cartão, que estava escondidinho numa dessas carteiras dadas por políticos em época de campanha. De volta ao cartório e, do cartório, de volta ao cemitério, onde precisava definir o local do sepultamento. A família queria usar o mesmo túmulo da avó, morta alguns anos antes.
''Se vocês vão utilizar um túmulo já construído, têm que chamar um pedreiro. O coveiro não mexe com isso'', avisou o funcionário do cemitério. E lá se foi Josué atrás do pedreiro. Procurou um, procurou dois, procurou três. Só no quarto conseguiu ''fechar o negócio''. Já era meio-dia e Josué ainda precisava pagar a guia de sepultamento na prefeitura. A essa altura, a prefeitura tinha fechado para o almoço. Teve que voltar à tarde.
Guia paga e Josué ainda tinha mais um trabalho: ir em busca de um ônibus para levar até o cemitério parentes e amigos do avô que acompanhavam o velório. Na hora do enterro, uma solenidade simples. Despedidas, uma rápida oração e, sobre o túmulo de cimento bruto apenas uma cruz de madeira com o nome do avô e uma frase que, naquele finalzinho de tarde, mais pareceia um conselho a Josué: ''Descanse em paz''.


