A fartura de peixes é tanta no trecho do Lago Igapó 1 localizado nos fundos do Circo Funcart (Zona Sul de Londrina) que os muitos pescadores que disputam um lugar na margem conseguem fisgá-los até pela barriga. Mas o que não se conhecia até anteontem era que o motivo de tamanha concentração em um único ponto é que os peixes estavam sendo atraídos pela grande quantidade de esgoto ''in natura'' que vinha pela galeria de água pluvial e caía diretamente no leito do lago.
Intrigado pela grande aglomeração de pescadores no local, já há pelo menos 60 dias, o assessor para Recursos Hídricos da Secretraria Municipal do Ambiente (Sema), João Batista de Souza, disse que foi alertado por um pescador de que o mistério poderia ter ligação com um possível vazamento de esgoto. Ontem pela manhã, ele foi verificar um ponto de visita da galeria pluvial que desemboca no trecho e confirmou a suspeita. ''Ouvi um barulho de água corrente, levantei a tampa e vi. O problema é que a galeria é submersa, o esgoto in natura se dilui rapidamente e não dá para perceber a poluição do lago apenas olhando'', comentou o assessor. A grande quantidade de matéria orgânica, em vez de afugentar, acaba atraindo cardumes inteiros em busca de alimento fácil.
O assessor apontou que pelo trecho passa o emissário sul, maior tronco da rede de esgoto de Londrina, que faz a captação dos resíduos domésticos gerados por bairros de Cambé e das Zonas Oeste, Centro e Sul de Londrina. Todo o volume captado é levado para a Estação de Tratamento da Zona Sul.
Logo após ser informada, a Sanepar mandou uma equipe para vistoriar a região. Foi detectado que a origem do vazamento era uma obstrução em um trecho da rede próximo ao lago. O gerente geral da Sanepar em Londrina, Sérgio Bahls, orientou que a população pode ajudar a empresa a resolver rapidamente este tipo de problema ligando para o telefone 115 e fazendo a reclamação. Ele esclareceu que o trabalho de prevenção e vistoria em toda a rede é feito diariamente e que até mesmo as galerias pluviais são verificadas.
Fiscais da Sema estiveram no local avaliando o dano ambiental e, segundo o secretário Gerson da Silva, a Sanepar deverá ser autuada na segunda-feira. ''O problema foi estancado. Porém, houve o fato e teremos que verificar agora até onde será possível avaliar a extensão do dano provocado'', argumentou o secretário. A multa aplicada nestes casos pode variar de R$ 1 mil até R$ 50 milhões. Sobre isso, Bahls reiterou que o problema resultou de um ''acidente''.
Alheios aos riscos à saúde, os pescadores não se mostraram preocupados em consumir o que conseguem tirar do lago. Alguns chegam a ingerir peixe crú - na forma de sashimi -, o que aumenta ainda mais a gravidade da situação. Na tarde de ontem, a FOLHA contou 30 pescadores em pouco mais de 10 metros de margem. A dona-de-casa Maria de Araújo revelou que pesca ali todos os dias e que já chegou a levar mais de 20 kg de tilápias para casa. ''Faço frito, assado, torta... Minha filha de cinco anos come esse peixe quase todo dia e nunca ficou doente'', apontou. Ela revelou que para ''pegar'' os melhores pontos é preciso chegar de madrugada. O pintor Dimas Elias da Silva também disse que já sabia do vazamento mas não temia os riscos. ''Nunca tive problema nem nunca ouvi falar que alguém ficou doente por comer peixe daqui'', concluiu.

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