Engana-se quem pensa que nos lixões do Brasil só existe sujeira e objetos inúteis. País onde é comum o descuido com o tratamento de resíduos materiais, os lixões são fonte de sobrevivência para muita gente carente que, literalmente, se acostumou a sujar as mãos no serviço. Nem por isso, e por trás de todas as dificuldades aparentes, o trabalho no lixão deixa de ter dignidade. Na prática, as mudanças alcançam apenas as condições sanitárias e a natureza das histórias vivenciadas ao longo dos anos.
''Eu já tive dois urubus de estimação aqui, comecei a cuidar deles desde pequenininhos'', conta o catador de recicláveis, João Simão, de 58 anos - dos quais 15 trabalhando diariamente no lixão. ''Quando eu ia para casa na cidade, eles iam junto, lá em cima, me acompanhando'', relembra, sem disfarçar a saudade.
Simão explica que os urubus só o deixaram após um grave acidente. ''Era dia de chuva, eu estava aqui trabalhando com uma mula e ela deu uma arrancada. Estava escorregadio e acabei caindo com tudo em cima de uma pedra. Quebrei a perna em três lugares'', diz, mostrando as cicatrizes. ''Fiquei sem trabalhar durante o tratamento e quando sarei eles tinham ido embora'', lamentou, com ar de quem reconheceria os companheiros se ainda estivessem entre os urubus que continuam a sobrevoar o lixão.
Simão também é testemunha dos inúmeros crimes ambientais cometidos no local. ''Lixo hospitalar jogam até hoje aqui, na segunda e sexta-feira. Vem seringa, bolsa de sangue, resto de gesso, de remédio, pedaço de dedo, de gente, tudo que você imagina. Eles jogam óleo diesel e tacam fogo em cima'', conta. ''Uma vez teve um material que ficou queimando três meses, tive que chamar os bombeiros.''
O resultado da situação, o catador de reciclável conhece na prática. ''Contamina tudo né, não sobra nada. Antigamente não era assim. Quando cheguei aqui, a gente pescava nesse rio para comer. Tinha bastante traíra, bagre, tilápia e cascudo, Hoje, quando você vê um peixe, ele está morto dentro da água.''
Além das mudanças ambientais, Simão, que começou a catar lixo reciclável muito antes da própria expressão ser criada, reclama das atuais condições de trabalho. ''Antes pelo menos a gente podia catar (lixo reciclável) sossegado. Agora eles (prefeitura) implicam e dizem que vão tirar a gente daqui. Eu não quero sair, mas não sei como vai ficar. Nesse País, a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco''. (F.C.)

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