O senso comum vive repetindo: dinheiro de jogo vai com a mesma facilidade com que vem. O raciocínio se estende aos garimpos. A fortuna de uma pedra passa mais rápido que as corredeiras do Tibagi. No livro Lençois de Outras Eras (Thesaurus, 1984), de Nadir Ganem, que relata histórias sobre a extração de diamante no interior da Bahia, há um episódio sobre como a riqueza repentina fazia dos garimpeiros personagens de perdulárias aventuras, muito além da jogatina e da prostituição.
Os garimpeiros Valdemar Santos e seu irmão conhecido como Santinho, naturais da Chapada Diamantina e que migraram para Tibagi nos anos 40, gastaram grande parte do que ganharam no Paraná comprando um Ford, modelo conhecido como Baratinha, e foram até a terra natal em uma viagem de longo curso muito rara no período da Segunda Guerra Mundial, com sua escassez e carestia.
Gastar combustível para quatro mil quilômetros era quase um pecado. Mas eles não ligaram para a conta astronômica. Ainda estavam inebriados pelo momento mais marcante que um garimpeiro pode viver. ''Mergulhando em determinado poço, voltaram à tona com o cascalho que conseguiram ensacar e, ao despejá-lo no chão, ficaram deslumbrados, diante da quantidade de diamantes. Parecia-lhes haver mais gemas no cascalho do que estrelas no céu''.
Melhor que história escrita é história contada. Pedro Paulo Pinto, 87 anos, nem sabe ou não quer explicar o que fez com a fortuna conquistada naquela tarde de sua juventude. ''Era tudo pedrinha. A maior tinha um quilate. Mas eram muitas. Contei e lembro bem: eram 88 pedras. De uma vez só''. Pinto perdeu a perna direita aos 23 anos (vítima de reumatismo), nove anos depois de começar a garimpar no Tibagi. Hoje ele tem tempo de sobra para lembrar sua odisséia subaquática, que durou até os 70 anos. Vive em um casebre de madeira no meio de uma mata nativa, próximo à margem do rio e de uma balsa em processo de desativação. O ponto de referência do local é a Cachoeira da Marcolina. É lá que o velho garimpeiro se orgulha de um dia ter içado das profundezas, 100 quilos de cascalho.
Antonio de Paula, 50, não condena o pai. A incapacidade de ''juntar dinheiro'' do seo Pedro Paulo o obriga a dar duro na lavra. Mas a época de abundância acabou. Mesmo com a ajuda preciosa da draga, o mergulho do século 21 enfrenta uma bacia diamantífera em decadência. ''A draga tá levando tudo'', resume Antonio, ainda à espera de uma pedra que valha por 88 e do equilíbrio para lidar com a sonhada fortuna. Isso, se ela vier um dia.

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