Pedro, o guardião da mata
Nos contos infantis, as matas e florestas são guardadas por fadas e duendes. Esses seres mágicos, protegem animais e plantas das pessoas más e egoístas. Ali, a luta do bem contra o mal tem como armas o colorido e a força da magia. Na vida real, os verdadeiros guardiães de matas e florestas enfrentam como mal a ignorância e a inconsciência dos que ainda não reconhecem na natureza, a importância e a necessidade da preservação. Sem apoio de órgãos competentes e, muitas vezes, até sem instrumentos para realizar direito o seu trabalho, eles têm como armas apenas o amor e a fé no que fazem.
Essa é a história do seo Pedro Dias Barboza, 60 anos, segurança da mata onde está localizado o marco histórico de Londrina (Marco Zero). Um lugar calmo, na maior parte do tempo. O silêncio ali só é quebrado pelos sons da própria mata, o latido dos cachorros e o barulho abafado da Avenida Theodoro Victorelli, que cerca boa parte do local.
Nascido em Américo de Campos, São Paulo, seo Pedro veio para Londrina com 17 anos. Durante um certo tempo trabalhou em propriedades rurais, chegando a ser administrador em algumas delas. Há 27 anos, porém, entrou para a empresa Coinbra S.A., antiga Anderson Clayton, onde passou a tomar conta dos dois alqueires, propriedade daquela empresa, em que está localizada a mata.
Alegre e comunicativo, seo Pedro se emociona ao lembrar do pioneiro George Craig Smith que, enquanto viveu, ia ali com frequência para conversar e observar a mata. Ele gostava muito disso daqui. E sempre vinha tomar um cafezinho aqui com a gente. Sonhava que esse lugar um dia pudesse ser valorizado como deveria. Isso aqui era a vida dele. Ele e o doutor Alceu Ferraz batalharam muito para que esse lugar pudesse ser reconhecido, conta.
Josoé de CarvalhoAqui chegou a primeira comitivaCasado, pai de dois filhos, residindo numa casa perto da mata, seo Pedro se dedica praticamente 24 horas ao trabalho e repete com frequência que aquilo ali é a sua vida. Sobre a história do local sabe de cor. Aqui chegou a primeira comitiva em Londrina. Os homens chegaram em lombo de burro e fizeram aqui a primeira picada para construírem a cidade. Aqui também foi construído o primeiro reservatório de água de Londrina. As minas ainda funcionam, mas a casa das máquinas está se acabando aos poucos, por falta de cuidados. Infelizmente, a maioria das pessoas não sabe a importância que tem esse lugar na história da cidade , lamenta.
Para ele, cada pedaço de madeira que cai da casa das máquinas é uma parte da história da cidade que vai embora.Eu me pergunto se estou errado. Esse lugar não merece ser preservado? Sou um caboclo que veio da terra. Amo a natureza, amo o meio ambiente. E isso requer conscientização, exige que a gente se dedique de corpo e alma. Esse ponto verde está aqui, dentro do coração, diz.
E é nisso que pensa quando anda pela mata e encontra árvores com seus troncos raspados,sangrando, algumas em função de puro vandalismo. Passo barro nas feridas enfaixo o local, para que elas possam se recuperar. Para seo Pedro, a mata não lhe dá apenas o sustento, mas também boa parte da alegria e até das tristezas que tecem sua vida.
Das muitas histórias que tem para contar, ele não esquece a do papagaio selvagem que ficou enroscado numa peroba de 300 anos, há mais de 40 metros do chão. Isso foi há cerca de um ano. Foi necessário o corpo de bombeiros para resgatá-lo. O trabalho de salvamento demorou nove horas. Depois, o bichinho ainda ficou em observação, por mais 48 horas. Após ser liberado pela equipe de resgate, eu e minha mulher ficamos responsáveis por ele, até que o bando de papagaios retornasse e pudéssemos soltá-lo, conta.
Durante a semana em que ficou com o papagaio, surgiu uma amizade que parece não ter prazo para acabar. Nós lhe dávamos miolo de pão e sementes de girassol. Durante esse tempo, eu conversava com ele e pedia para que quando fosse embora não esquecesse da gente e viesse nos visitar, sempre que pudesse. Parece mentira mas, semana sim, semana não, ele sempre aparece por aqui com a sua companheira, relata orgulhoso.
Por essas e por outras, seo Pedro se sente recompensado. E, de novo, os olhos enchem de lágrimas ao dizer do orgulho que tem perante Deus, do trabalho que realiza com amor, respeito e dedicação. Amo esse pedacinho de chão e dedico minha vida a esse lugar.Josoé de CarvalhoPreservaçãoO segurança Pedro Dias Barboza, 60 anos: Eu me pergunto se estou errado. Esse lugar não merece ser preservado? Sou um caboclo que veio da terra, amo a natureza, o meio ambiente, amo esse pedacinho de chãoJossânia Navolar





