Pedreiro volta a falar após seis anos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de outubro de 2003
Maigue Gueths<br> Equipe da Folha 
Curitiba No dia 31 de dezembro de 1997, o pedreiro Amauri Calixto, então com 25 anos, foi atropelado na BR-116, próximo ao bairro Colina Verde, em Curitiba, onde estava há quase um ano procurando emprego. Inconsciente, e sem documentos, foi levado ao Hospital Cajuru. Diagnosticado com traumatismo craniano e em coma, perdeu a fala e todos os movimentos dos ombros para baixo. Depois de cinco anos e nove meses internado no hospital, onde era conhecido apenas como NI (sigla de Não-Identificado, utilizada para quem chega sem documentos ao hospital), no dia 30 de setembro Amauri voltou a falar e ontem pôde voltar a Lages, em Santa Catarina, onde vivem seus cinco irmãos.
A recuperação de Calixto não aconteceu por acaso. Foi fruto de um trabalho intenso da equipe de fonoaudiologia e fisoterapia. ''Nós achávamos que ele não conseguiria mais falar, mas estávamos trabalhando para melhorar suas condições de vida'', conta a fonoaudióloga Beatriz Alves de Souza. Como ele não se comunicava, a equipe partiu para um trabalho alternativo, na busca de uma linguagem própria, para que respondesse questionamentos básicos, como se sentia dor.
Duas alunas de fono começaram a trabalhar com reconhecimento de objetos, criando um código. Para surpresa delas, na sessão de 30 de setembro Calixto pronunciou a palavra ''não''. A partir desse momento, o trabalho passou a ser direcionado para que reaprendesse a falar e aos poucos ele contou seu nome, que sua família era de Lages, que tinha filhos.
Daí para frente, o reencontro com os familiares foi fácil. O serviço social do hospital entrou em contato com a imprensa de SC e no dia 9 de outubro, Rosalba, de 23 anos, irmã de Calixto, esteve no Cajuru, reconheceu o irmão e iniciou um processo para levá-lo para casa.
''Agora ele precisa de muito carinho e amor'', disse Rosalba ontem, antes de viajar com Calixto. Em Lages, ele vai viver em uma casa com Rosalba e outra irmã, casada e que tem cinco filhos. Separado, ele teve dois filhos, Ewerton, 9 anos, e Rafael, que morreu atropelado aos 7 anos. Segundo a enfermeira, em 1988 Calixto já poderia ter alta, mas como não havia como localizar sua família, optou-se por sua permanência no hospital.
Como a família é carente, as assistentes sociais do Cajuru já cadastraram o ex-paciente no programa Ação Social da Prefeitura de Lages para garantir que ele continue com o trabalho de fisioterapia e fonoaudiologia. Mas a enfermeira Daiani Grande Henrique acha, que mesmo assim, a família vai precisar de muita ajuda. Como não tem os movimentos, ele necessita de alimentação na boca, banho de leito, fraldas descartáveis e muita atenção.
Calixto ainda fala com dificuldade e às vezes de forma confusa, mas a expectativa é que continue melhorando. ''Agora nós dizemos que NI também significa Nada é Impossível'', disse Beatriz.


