Pedreiro e menor acusam PMs
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terça-feira, 20 de janeiro de 1998
Londrina 
Em apenas um dia, houve duas denúncias contra policiais militares na região de Londrina. Em ambos os casos, as acusações são de violência - uma delas contra rapaz de 16 anos.
O pedreiro Edvaldo Mesquita, 23 anos, morador do jardim Bandeirantes (zona oeste de Londrina), acusou ontem o soldado José Roberto Rigoni, da Polícia Militar de Cambé, de espancá-lo na manhã do último domingo. Além de Rigoni, Edvaldo acusa também o irmão do policial, um amigo dele - chamado João Batista - e também outro PM, conhecido por Macarrão, e que estaria trabalhando no plantão de domingo. Os quatro teriam praticado o espancamento.
Edvaldo Mesquita esteve pela manhã no Instituto Médico Legal (IML) de Londrina para fazer exame de lesões corporais. Ele estava bastante machucado, com marcas nas costas e pernas. Além disso, tinha ferimentos no supercílio esquerdo, nos dedos e em outras partes do corpo. Quebraram o cassetete nas minhas costas, levei chute no estômago e bateram minha cabeça na quina de uma mesa, conta o rapaz. E ainda me perguntaram se eu tinha dado adeus à minha família. Achei que fosse morrer.
O pedreiro explica que o motivo da briga seria a venda de uma motocicleta, comprada por ele pelo preço de R$ 1,3 mil. A moto seria do soldado Rigoni. Edvaldo garante que assinou uma nota promissória no valor de R$ 500 - que venceria ontem - e depois pagaria o restante na próxima sexta-feira. Domingo, no entanto, por volta das 20 horas, foi procurado pelo policial, que informou que queria a moto de volta. Eu iria entregar a moto, afirma.
Segundo o pedreiro, Rigoni disse que estava tudo certo e ofereceu uma carona até a igreja do bairro. Porém, o pedreiro teria sido levado até a casa do próprio policial, em Cambé. Lá, teria apanhado tanto de Rigoni (que estava à paisana) quanto do irmão dele. Depois, os agressores teriam acionado uma viatura da PM, que chegou minutos depois, levando-o para um sítio no jardim São Paulo, em Cambé, onde Edvaldo diz ter apanhado ainda mais e com mais violência.
O Rigoni me acusou de ter roubado a moto, queria que eu confessasse. Mas foi ele que ofereceu a moto para mim. Eu assinei uma promissória e ele ficou com o recibo da moto, diz. Do sítio, a viatura levou o pedreiro até a Delegacia de Cambé. Fiquei preso. Disseram que só iriam me soltar se eu não comunicasse a imprensa do que tinha acontecido. Ele diz que só foi sair da delegacia por volta da meia-noite.
A delegada Geane Aparecida Felício dos Santos, de Cambé, informa que Edvaldo foi entregue à Polícia Civil, no último domingo, para averiguação de elemento suspeito. Rigoni teria solicitado a presença da PM dizendo que o pedreiro se apoderara de sua moto. Mas aqui foi constatado que se tratava de uma transação comercial, diz. E, como isso não é crime, a gente libera.
Geane dos Santos diz ainda que o pedreiro já chegou à delegacia com corte no supercílio e escoriações. A alegação dos policiais militares, segundo ela, foi que Edvaldo teria reagido à prisão e por isso foi necessário utilizar força física para prendê-lo.
Edvaldo Mesquita afirmou que, depois de realizar os exames de lesão corporal, iria prestar queixa da agressão na Polícia Civil, Militar e também, se fosse necessário, acionar o Ministério Público para apurar as denúncias.
O menor F.A.S., 16 anos, foi ontem ao comando do 5º Batalhão da Polícia Militar (BPM) e disse que foi agredido dentro do módulo policial do jardim Santo Amaro, em Cambé. Segundo ele, a agressão foi praticada por três policiais militares. Eles haviam detido o rapaz em frente de casa, levando-o em uma viatura até o módulo. Ele me bateram de cassetete sem nenhum motivo e prometeram me matar se eu denunciasse. Eu não entendi porque eles fizeram aquilo comigo.
Ele disse que minutos antes havia discutido com outro jovem por causa de uma moça. Na sequência, apareceram outras pessoas, formou-se uma confusão e houve briga generalizada. Terminou a confusão e eu saí, mas fui preso quando cheguei em casa, disse F.A.S. Ele não conseguiu identificar os policiais.
O subcomandante do 5º BPM, capitão Manoel da Cruz Neto, afirmou à Folha que abriu um procedimento disciplinar para identificar os policiais e apurar a acusação. Se ficarem provadas as denúncias, eles serão punidos exemplarmente.
Sobre as denúncias de Edvaldo Mesquita contra o soldado Rigoni, o subcomandante afirmou que até o final da tarde de ontem não havia recebido nenhuma acusação formal.


