Blitz, documento! Foi assim que José Raimundo, o 'Zicão', foi abordado outro dia, quando voltava do serviço. Pedreiro desde criança e torcedor crítico do Tubarão, estava sonolento no ônibus quando tudo começou. Sentado na segunda fileira, ele não sabia do que se tratava.

O homem fardado havia subido no ônibus, pela porta da frente, junto com outros dois amigos: um com o mesmo uniforme e outro sem. Um deles, novamente gritou:

Documento!!

Zicão ficou assutado, pois como sempre, ia ao trabalho com roupas velhas, de bolsos furados, e sem nenhum documento. O máximo que trazia consigo era uma imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Mesmo assim, tentou buscar algo nos bolsos para comprovar sua inocência diante de tal abordagem. Foi em vão.

Não teve tempo de se defender e acabou sendo encaminhado com outros para fora do ônibus. Com as mãos para cima, debruçado sobre a lataria do ônibus, passou por uma 'averiguação' manual um tanto quanto constrangido. Foi separado dos outros e encaminhado para a 10 Subdvisão Policial.

Lá, na cela em meio a outros na mesma situação, Zicão não teve tempo para se explicar. A única coisa que conseguiu fazer foi pedir para um soldado telefonar para sua casa. A família ficou aflita, sem saber a razão. Três horas depois, seu sobrinho apareceu na delegacia, com os documentos, para livrar o tio Zicão da cadeia. Do jeito que entrou ele saiu: quieto e com medo.

Já na rua, duas quadras longe das celas da 10, rumo ao ponto de ônibus, o sobrinho abre o jogo com o tio:

-Pô tio ! Lá no bairro tava todo mundo sabendo da batida dos home. Com a propaganda que fizeram, malaco que é malaco ficou em casa, não pisou na rua.

Zicão, amuado, não respondeu ao sobrinho. Quieto, pensava somente em chegar em casa, tomar um banho e dormir. Afinal, Zicão não era 'malaco', era um simples pedreiro sem documento.

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