Curitiba - Denúncias de crimes sexuais contra crianças e adolescentes são realizadas diariamente em Curitiba. É o que afirma a promotora da vara especializada em atender estes crimes, Carla Moreto Macarini. Mas como fazer para que casos de pedofilia diminuam e que o direito estipulado no Estatuto da Criança e do Adolescente esteja garantido? Até então a única saída era prestar atendimento psicológico às vítimas e prender o acusado. Mas associações do País inovaram e resolveram atingir a raiz do problema atendendo os próprios autores dos crimes.
A ONG Fênix, de Curitiba, é uma das duas únicas associações do País que desenvolvem tratamento para pedófilos. Porém, o trabalho desenvolvido não é visto com bons olhos. Quando as integrantes falam sobre o projeto, deixam por último a informação de que tratam também os agressores e não apenas as vítimas. E o preconceito vem até de policiais que atendem denúncias de crimes sexuais.
Um caso ocorreu com uma jovem de 13 anos abusada pelo pai. Quando esteve no Instituto Médico Legal (IML) teve que falar toda a história para o médico. Em seguida foi encaminhada à delegacia por um carro da polícia. Durante o trajeto estavam no automóvel dois policiais, a vítima, sua mãe e a presidente da Fênix, Sandra Dolores de Paula. No carro, os policiais perguntavam detalhes sobre o ato sofrido pela jovem usando inclusive termos chulos.
Sandra interveio nas observações e disse que a vítima somente iria falar sobre o que havia acontecido quando chegasse na delegacia. ''Nesse momento um deles olhou para mim e disse que era por causa de pessoas como eu que havia tanto estuprador no mundo'', revela Sandra. Na delegacia a jovem via através de um vidro o pai apanhar da polícia.
Segundo a presidente da ONG, as mães têm parcela de culpa nos crimes. Muitas delas não aceitam ou não acreditam que o esposo possa fazer mal aos filhos. O fato de saber que estupradores e pedófilos sofrem retaliações na cadeia também faz com que as denúncias não sejam feitas. ''Nesses casos a mãe também pode ser denunciada por omissão'', explica Sandra.
O tratamento ao pedófilo é realizado através de acompanhamento psicológico e medicamentos para diminuir a libido. Os atendimentos são individuais e ocorrem quando não há qualquer criança na sede da Fênix. A ONG também atende crianças vítimas de agressão sexual ou portadoras do vírus HIV. Os adultos são encaminhados pela Vara de Crimes conta a Criança e o Adolescente para iniciar o tratamento. De acordo com as profissionais, o primeiro passo é acusado reconhecer o erro. Porém, o juiz da vara de Curitiba, Eduardo Lino Fagundes, diz ser difícil realizar tratamento pois 99,9% não assumem o crime. ''Como fazer um tratamento com alguém que diz não ter feito nada?''
Negação
De cada 10 pedófilos encaminhados à Fênix, apenas dois se interessam em fazer o tratamento. Eles negam o crime e acham que não precisam curar uma doença que não possuem. Mas alguns atendimentos geram resultados e há pacientes que reconhecem o erro e consideram que a agressão realizada pode ter causados danos psicológios à vítima.
O trabalho da Fênix poderia atender mais pessoas. A falta de recursos impede que novas ações sejam realizadas. A associação recebe R$ 4.500,00 por mês da Fundação de Ação Social (FAS). ''Nos repassam pouco dinheiro mas não querem que o trabalho acabe. Se não se trabalha com o autor do crime a agressão nunca vai acabar. Pedofilia é uma doença que precisa ser tratada como qualquer outra'', reclama Sandra.

Serviço - A ONG Fênix procura psicólogos voluntários; fone (41) 3353-8017

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