A inocência maculada e toda a vida tentando se recuperar do trauma. É assim que se sentem as crianças vítimas de pedófilos. A pedofilia (abusos e violência sexual cometidos contra crianças com até 13 anos), segundo a Polícia Militar do Paraná, faz uma vítima por hora no país. Apenas na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), são três vítimas por dia. Na tentativa de reverter essas estatísticas, a representante paranaense do Movimento Nacional em Defesa da Criança Desaparecida e Vitimizada e coordenadora do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), sargento Tânia Mara Abrão Guerreiro, percorre cidades paranaenses e de outros estados esclarecendo pais, professores e sociedade em geral sobre como identificar quando uma criança está sendo vítima desse tipo de violência. Outra luta sua é incluir a pedofilia como crime no Código Penal Brasileiro.
Longe da figura autoritária de sargento, Tânia aborda a pedofilia sem rodeios. ''Não adianta camuflar o assunto. Temos que falar abertamente para que os pais se preparem e consigam entender seus filhos'', argumenta. A objetividade do discurso, segundo ela, facilita a compreensão dos ouvintes, que só neste ano já ultrapassaram a marca dos cinco mil. Ontem à noite, Tânia ministrou palestra em Londrina e hoje à noite estará em Ibiporã falando sobre o mesmo tema. Os encontros são gratuitos mas não é permitida a participação de menores de 17 anos.
Como já é sabido, a imensa maioria dos pedófilos são pessoas muito próximas da criança vitimizada: em 87% dos casos, os agressores são os padastros ou os próprios pais. Em 90% dos casos, segundo a sargento, as mães são coniventes com a agressão, ou por temerem perder seus companheiros e passarem dificuldades financeiras ou porque também são vítimas de ameaças. O agressor se aproveita da proximidade e da relação de confiança que tem com a criança para praticar toda sorte de perversão sexual, apostando no medo que a vítima tem de denunciar.
E as crianças agredidas sexualmente, aponta Tânia, serão adultos traumatizados. ''Normalmente são fracassados no casamento, têm tendências suicídas e estão mais propensos a fazerem uso de álcool e outras drogas'', afirma. Por isso é tão importante que os pais ou responsáveis identifiquem os sinais emitidos pela criança vítima de pedofilia. Os mais comuns são distúrbios do sono, retraimento, queda no rendimento escolar e explicitação precoce da sexualidade.
Além de trabalhar no esclarecimento sobre o tema, a sargento também luta para conseguir tipificar a pedofilia como crime no Código Penal Brasileiro, o que poderia resultar em punições mais severas para os pedófilos. Hoje, o pedófilo é autuado com base nos artigos 213 (estupro) e 214 (ato libidinoso), que prevê pena de reclusão de seis a 10 anos. Tânia aponta que a reforma recente feita no Código Civil ajudou bastante ao permitir, por exemplo, que até a quinta geração da criança possa requerer sua guarda na Justiça. Mas ainda é muito pouco.

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