Com apenas 5 anos de idade o psicólogo José (nome fictício, pois o entrevistado pediu para ter sua identidade preservada) começou a sofrer agressões sexuais e físicas do próprio tio. Durante seis anos seguidos, o jovem conviveu com o sofrimento de ser vítima de um pedófilo e não pôde falar para ninguém sobre o que acontecia na casa onde viveu.
Hoje, com 25 anos, ele conta em entrevista à FOLHA como foi o período que sofreu com os abusos e no que isso influenciou sua vida.
Atualmente, José mora em São Paulo, mas já passou por Porto Alegre, Curitiba e Belo Horizonte. Depois de tentar suicídio em diversas ocasiões, decidiu adotar duas crianças. Por conta da depressão, perdeu a guarda dos filhos. Depois que sofreu as agressões conheceu pessoas com casos similares ao dele. Segundo José, algumas pessoas transformaram-se em ''monstros'' e outras ajudaram crianças na mesma situação. ''Acredito que depende de cada um levar isso como uma lição ou deixar o trauma te levar adiante''.

FOLHA - Você foi vítima de pedofilia na infância. Quando as agressões começaram?
José - Foi quando fui morar com meus tios. Meio difícil de aceitar, né? Mas é a verdade. Eram constantes as agressões feitas pelo meu tio. E minha tia sabia do que acontecia. Ela é irmã da minha mãe.

FOLHA - Por que você foi morar com eles?
José - Eu vivia com meus pais, mas devido à crise financeira que sofremos decidiram mandar minha irmã mais velha para a casa dos meus avós. Só que ela não quis, então eu mesmo percebi o problema e topei ir morar com meus tios, em Belo Horizonte. Meus pais moravam em São Paulo. Os meus próprios tios ofereceram a casa deles para eu morar.

FOLHA - Seus tios tinham outros filhos?
José - Um filho dois anos mais velho que eu.
FOLHA - Ele também sofreu as agressões?
José - Olha, não posso afirmar, mas creio que não. Eu fui pra lá e passei a ser tratado como um cachorrinho, sabe? Minha comida era separada, meu quarto era lá fora, sem janela e sem luz. Eles me agrediram muito fisicamente. Com o filho era diferente. Nunca encostaram a mão. Ele estudava no melhor colégio, tinha tudo o que queria e era incentivado a me fazer mal.

FOLHA - A agressão sexual começou quanto tempo depois que você chegou?
José - Demorou meio ano, mais ou menos.

FOLHA - Você tentou falar para alguém?
José - Eu tinha medo de precisar voltar pra casa e estragar a vida dos meus pais. Sempre soube que eles me amavam e que não podiam estar comigo. Então eu aguentava firme. Fiquei lá até os 11 anos. Depois voltei para São Paulo. Mais tarde precisei voltar, com 13 anos. Mas mesmo assim não contei para ninguém o que acontecia. Só que jurei que não ia mais deixar. Meus pais souberam das agressões físicas só no ano passado. Mas não contei do abuso sexual.

FOLHA - Você sofreu agressões físicas e sexuais dos 5 aos 11 anos?
José - Sim. Quando fui chegando aos 10 anos ele parou um pouco pois eu tentava reagir mais. Daí ele partia para agressão física. Mas continuava com o abuso sexual. Com 13 ele tentou uma vez. Eu reagi e ele não tentou mais. Só vinha me agredir fisicamente.

FOLHA - Como era a agressão que você sofria?
José - Quando ele me batia sempre falava palavrão. Dizia que eu não prestava, que minha mãe e meu pai eram isso e aquilo. Nunca entendi bem o que ele ganhava me batendo. Minha tia sempre me batia também. Me torturava, fez eu comer pedras, queimava meus dedos. Um dia ela disse que, como no dia seguinte era meu aniversário, iria preparar o meu prato predileto. No dia seguinte ela fez o prato, me convidou pra ficar na mesa junto com eles, o que nunca acontecia, e serviu para todo mundo meu prato escolhido. Pra mim, ela deu um copo d'água e disse pra eu ver eles comendo e me sentir satisfeito em sentir o cheiro. Era meu aniversário de 7 anos.

FOLHA - Como você era pequeno não tinha como reagir...
José - Eu sempre tentava, mas geralmente ele batia muito. Uma vez bateu tão forte em minhas costas que eu não sentia mais as pernas. Nunca fiquei quieto.

FOLHA - Você já contou isso para alguém?
José - Para poucas pessoas. Agressão física sim, muitos sabem, inclusive minha família. A sexual poucas pessoas sabem. Acredito que minha professora desconfiava. Mas na época eu não me ligava disso.

FOLHA - Você tem contato com seus tios hoje em dia?
José - Tinha até o ano passado. Sempre desviava, mas às vezes era inevitável. Como minha família não tinha conhecimento, os acolhia em nossa casa quando vinham passar uns dias. Até que eu resolvi contar que eles me batiam. Eu tenho problema cardíaco e depressão. Um dia contei para o meu irmão e ele me fez contar para os meus pais. Contei da agressão física somente, mas já foi um alívio grande. Foi uma época da minha vida que meu estresse subiu demais. Ou eu contava ou explodia. Mas ainda quero conversar sobre o abuso sexual com meus pais.

FOLHA - Como foi a reação dos seus pais quando contou da agressão física?
José - Primeiro foi a raiva. Mas quando acabei de contar tudo chorei muito. Eles me abraçaram e choraram mais ainda. O sentimento que predominou tanto em um quanto no outro foi arrependimento e culpa. Se acharam culpados por não estarem comigo, por terem me mandado pra lá. Eles não percebiam, pois meus tios sabiam as datas que eles iam me ver, então cuidavam para não me deixar marcado. Quando fui morar com eles, minha mãe me deu um urso de pelúcia. Eu chamava ele de ''Mãe''. Quando ia pro quarto escuro a noite chorava abraçado com ele. Contava para o urso o que acontecia e isso me aliviava. E quando eu escutava a música da Xuxa, Lua de Cristal, eu me sentia mais forte.

FOLHA - Você saiu definitivamente da casa deles com quantos anos?
José - Com 14 anos. Me revoltei e fugi. Fiz amigos em Belo Horizonte, morei na casa de um homem por um tempo, ele tinha uns 30 anos. Eu ajudava e ele me dava casa e comida em troca. Mas me entreguei à bebida, saía com o pessoal barra pesada. Pensei que não era aquilo que eu queria. Entrei em coma alcóolico e refleti que estava me tornando aquilo que sempre achei errado. Voltei de carona para São Paulo. Disse para os meus pais que briguei com meus tios, e que fugi, que virei um bêbado e queria voltar.

FOLHA - Como você acha que aquilo influenciou a sua vida?
José - Acho que foi um espelho inverso. Foi um tipo de lição pra aprender a ser diferente e tentar ajudar os outros.

FOLHA - Você fez algum tipo de tratamento para superar isso?
José - Faço até hoje acompanhamento psiquiátrico. Sou depressivo desde criança.

FOLHA - No que você trabalha?
José - Atualmente em uma loja de DVD, livros e eletrônicos. Mas sou formado em psicologia.

FOLHA - Você é casado?
José - Estou solteiro e tenho duas crianças que adotei. O mais velho era de uma catadora de papel que ia abortar. A mais nova era da prima de um amigo que também havia desistido da gravidez. Fui noivo duas vezes.
FOLHA - As crianças moram com você?
José - No momento estou dividindo apartamento com um amigo. Meus filhos infelizmente estão afastados, pois como estava com um nível de depressão muito alto, tiraram minha guarda. Estou quase conseguindo de novo. O primeiro eu adotei quando tinha 17 anos. Claro que não pude, então meus pais adotaram em nome deles. Com 21 passei para o meu nome, com a guarda definitiva. O mais velho está em um abrigo. Posso vê-lo todo final de semana. A mais nova está com uma família, mas eles querem que eu consiga ela de volta. Vou lá todos os dias.

FOLHA - Já superou o trauma?
José - Não vou dizer que às vezes não lembro. Me incomoda sim, mas é bem mais raro. Mas gasto muito tempo do meu dia pensando nisso.

FOLHA - Você acha que o fruto da sua depressão foi a agressão que recebeu na infância?
José - Acredito que sim.

FOLHA - Você sabe qual o motivo deles terem feito aquilo?
José - Infelizmente não sei. E acho que morro com essa dúvida. O que leva uma pessoa a fazer mal assim pra uma criança?

FOLHA - Pretende perdoar seus tios?
José - Não sei. Acho que não tem justificativa nenhuma aquilo. Não gosto de guardar rancor, mágoa, mas esse é um problema que não consigo entender e nem desculpar. Não foi sem querer ou uma brincadeira boba ou qualquer coisa similar.

FOLHA - Você tem algum receio que seus filhos passem por isso?
José - Com certeza. Não só meus filhos, mas meus sobrinhos e todas as crianças.

FOLHA - Quando você atuar na área da psicologia pretende trabalhar nesta área?
José - Eu atuava. Atendia crianças em uma clínica, mas não eram só vítimas de agressão. Infelizmente tive que sair pois me envolvo demais com os casos.

FOLHA - O que seus tios convesaram com você até a última ocasião que encontrou com eles no ano passado?
José - Falam pouca coisa mas não tocam no assunto. Agem como se não houvesse nada. Dizem que eu precisava voltar lá um dia para visitá-los.

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