Curitiba - O segurança Alcídes Dias, 68 anos, para no acostamento, espera o fluxo de carros diminuir um pouco e sai em disparada. No caminho, encontra um conhecido e o cumprimenta, antes de terminar a travessia da Rodovia do Café (BR-277, ligando Curitiba ao Norte do Estado).
A Rodonorte, concessionária que administra o trecho, informa que 25 mil carros passam pela rodovia por dia. Poucos metros distante do ponto onde Dias atravessou a BR-277, uma passarela permanece vazia. ''Não tenho um pingo de medo de atravessar aqui'', dispara o segurança, tão rápido como os carros que cortam o rodovia. Como ele, muitos moradores do Jardim Guarani, entre Curitiba e Campo Largo, na região metropolitana, arriscam-se entre os carros para evitar ter de subir a rampa e cruzar de um lado para o outro.
Para justificar o arriscado ato, ele diz que um dos motivos é a pressa. Segundo Dias, pela rodovia é muito mais rápido. Outro problema é a distância do ponto de ônibus que liga o bairro ao Centro de Curitiba. Os moradores do Jardim Guarani reclamam que o ponto foi instalado muito longe da passarela. É o que diz a porteira Andréa Gonçalves de Siqueira, 33 anos. ''Acho que deviam colocar a grade para evitar a passagem e transferir o ponto para mais perto da passarela'', opina ela, que diz sempre atravessar pela passarela.
Mesmo com um local próprio para a travessia, o desrespeito continua e o resultado vem em acidentes. Em 2008, a Rodonorte registrou 58 atropelamentos nos 480 quilômetros administrados pela concessionária (entre Curitiba e Apucarana e Ponta Grossa e o interior do Estado de São Paulo). Desses, 17 aconteceram a menos de 100 metros de uma passarela. Sete pessoas morreram em pontos próximos a áreas de passarela.
Já no trecho da BR-277 onde a FOLHA conversou com os moradores que continuam se arriscando na rodovia, 21 atropelamentos aconteceram no local, segundo a Rodonorte. Destes, oito pessoas morreram. Cinco foram próximos as passarelas.
Palestra e teatro
Ao total, a Rodonorte construiu 11 passarelas, como determinado no contrato com o Departamento de Estradas e Rodagem (DER). Além disso, um trabalho periódico é desenvolvido pela concessionária na tentativa de evitar acidentes. O programa ''Eu Uso Passarela'' é realizado em três frentes de conscientização. Na primeira, aborda os moradores em áreas próximas das passagens para lembrar a importância destas. Em um segundo momento, realiza palestras e teatros com crianças de escolas na região da rodovia. Para completar, promove concursos de desenhos com as crianças reforçando os benefícios da passarela.
Nos pontos onde a população cruza por entre os carros não existe a grade que impede que isso aconteça. De acordo com assessoria da Rodonorte, a cerca é dispositivo necessário para obrigar que as pessoas usem a passarela, mas não é um componente obrigatório da passagem.
Para Ozir Jacomel, Chefe da 2 Delegacia de São José dos Pinhais da Polícia Rodoviária Federal (PRF), as pessoas sabem dos perigos de se atravessar pela rodovia, mas mesmo assim se arriscam. ''As pessoas não consideram a situação de risco que estão passando'', diz. De acordo com Jacomel, a imprudência transparece nos locais onde os acidentes acontecem: sempre nos perímetros urbanos perto de passarelas.
Para tenta diminuir as mortes nos trechos de rodovia dentro das cidades, Jacomel diz que a polícia vai intensifcar o programa de palestras em escolas, conscientizando crianças da importância da passagem. ''O número de acidentes gerados pela passarela podia ser zero a população colaborasse'', diz Jacomel.

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