Mesmo em cruzamentos onde há semáforo para pedestre, o tempo disponível para a pessoa atravessar a rua é muito menor do que o reservado para os veículos
As três mortes no trânsito por atropelamento ocorridas recentemente em Londrina deixaram uma dúvida na comunidade: até que ponto o semáforo de três tempos contribui para confundir os pedestres? Foram muito parecidos nas circunstâncias e cenário os acidentes que fizeram vítimas as crianças Amanda e Lucas Colonheis, de 10 e 7 anos respectivamente, no dia 30 de junho, e o comerciante José da Rosa Vicente, 78, na última quarta-feira.
Os três morreram quando atravessavam avenidas movimentadas pela faixa de segurança, em cruzamentos com semafóros de três tempos equipados com conjuntos focais (semáforo específico) para pedestres. O tempo que o equipamento oferece para a pessoa fazer a travessia e a permissão para conversão à esquerda em alguns pontos da cidade são uma armadilha para os pedestres.
Segundo o diretor-presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), Jurandir Guatassara Boeira, as três mortes foram ‘‘emblemáticas’’ sobre o problema de trânsito na cidade. ‘‘Eles se enquadram nas faixas etárias que oferecem mais fragilidade no trânsito’’, diz. Ele admite que sempre há dificuldades quando se trata das duas faixas etárias. ‘‘Não posso deixar de reconhecer que o semáforo de três tempos complica a situação, já que exige um grau maior de atenção. Porém, independente disso, não deveria haver atropelamentos em faixas de segurança. Não há desculpa. O pedestre pode até estar errado mas se botou o pé na faixa, o condutor é obrigado a parar. A prioridade é sempre do pedestre’’, afirma. Mas prática não confirma a declaração.
O cruzamento da Avenida Tiradentes com a Rua Bauru (zona oeste da cidade) pode ser um bom exemplo de como a prioridade no trânsito nunca é o pedestre: a pessoa tem apenas 25 segundos para atravessar uma das pistas da avenida e chegar ao canteiro central. Depois, sobram somente oito segundos para a travessia da outra pista até a calçada. Já para os carros o semáforo permanece aberto durante um minuto. No mesmo cruzamento, o semáforo permite a conversão à esquerda, enquanto o sinaleiro está fechado para seguir em frente. Como alguns veículos permanecem parados, o pedestre pode se confundir e cruzar a rua, correndo o risco de ser atropelado pelo veículo que tem o tráfego liberado para a conversão à esquerda.
O presidente do Ippul argumenta que o tempo especificado no semáforo é suficiente para a travessia com segurança. ‘‘De acordo com estatísticas, um idoso caminha em média a uma velocidade de 0,7 metros por segundo. Com isso, tem condições de alcançar o canteiro ou a calçada com segurança’’, diz. Já a permissão para conversão à esquerda, segundo Guatassara, só é adotada em locais onde não há alternativas para a proibição.
Para ele, apesar de todos os estudos e modificações que são feitas no trânsito com o objetivo de melhorar a segurança, a questão continua sendo a da educação. ‘‘Se todos os pedestres e motoristas respeitassem as leis, o índice de mortes no trânsito cairia a zero’’, avalia. Guatassara defende punições mais rigorosas para as infrações de trânsito.

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