Destemidos, ciclistas e motoqueiros desafiam a lei ao andar sobre as calçadas da cidade. Sem medo de atropelar pedestres ou causar acidentes menores, só pensam em chegar mais rápido ao destino, seja qual for. E não é difícil ver os transeuntes desviando dos ciclistas a todo momento, pois são eles que precisam parar quando se vêem diante do perigo.
Numa simples volta pelo Centro de Londrina, a reportagem da Folha flagrou dois rapazes passeando em bicicletas nas calçadas das ruas Souza Naves e Rio de Janeiro. Em outro ponto da cidade, na Avenida Bandeirantes, um senhor pedalava calmamente sua bicicleta na calçada em frente ao Hospital Evangélico, enquanto do outro lado da avenida, um garoto fazia piruetas sem se importar com quem passava pelo local.
A legislação é categórica, diz o sargento Edivaldo Lopes, da Companhia de Trânsito de Londrina. Segundo ele, o código de trânsito estabelece que é proibido circular ou estacionar sobre o passeio público, mesmo quando a área destinada ao pedestre estiver protegida. ''A calçada só pode ser utilizada por veículos nos momentos de entrada e saída do imóvel'', explica.
Ainda de acordo com o sargento, estacionar sobre o passeio é considerado uma infração leve e pode gerar multa de mais de R$ 50. Já transitar sobre a calçada é uma infração gravíssima e o valor da multa pode superar R$ 570.
''Não há como quantificar o número de atropelamentos nas calçadas'', enfatiza Lopes. No entanto, ele informa que de janeiro a outubro deste ano já ocorreram 266 autuações envolvendo meios de transporte estacionados em passeios públicos, e outras 193 multas para veículos que transitavam pelas calçadas.
''É difícil flagrar o ciclista ou motoqueiro no ato da infração, mas isso pode acontecer. No entanto, a maior parte das autuações ocorre após denúncias'', afirma o sargento Edivaldo Lopes.
Segundo ele, os ciclistas têm recebido apenas um aviso ao estacionar a bicicleta na calçada. ''Não tem como multar porque a bicicleta não é considerada um veículo, já que não tem documentação.''
Por força da profissão, motoboys e carteiros utilizam as calçadas como alternativa para chegar mais rápido aos seus destinos. Mas isso não é justificativa. Conforme informações dos Correios, por meio da assessoria de imprensa, em Curitiba, todos os entregadores que utilizam motos são treinados em direção defensiva ao entrar na empresa e o treinamento é renovado constantemente. Normalmente eles trabalham em regiões mais distantes, como periferias e zonas rurais, e carregam cotas menores de correspondência.
Já os carteiros que usam bicicletas quase sempre são as vítimas dos acidentes e não os causadores. Eles também não precisam de treinamento, pois trafegam em menor velocidade. De acordo com a assessoria da empresa, os ciclistas trabalham nas áreas centrais e têm o apoio dos postos auxiliares dos Correios, pois o volume de cartas é maior.
Dados da empresa apontam a utilização de uma frota de 1.158 motos e 2,5 mil bicicletas, hoje, em todo o Paraná.
O carteiro Edson Altair dos Santos Machado usa a bicicleta para entregar as correspondências da Zona Leste de Londrina há nove anos. Ele afirma nunca ter se envolvido em acidentes, mas admite que precisa subir na calçada para ter acesso às caixas de correspondências.
''Sei que não pode, mas quando tem muita gente no meio fio, costumo levantar a bicicleta nos braços'', conta o carteiro, que nunca foi autuado. ''Também nunca ninguém me parou para falar nada.''
Seu companheiro de trabalho, Joicio Alcântara, também trabalha nos Correios há nove anos, mas usa moto para fazer entregas em regiões mais distantes da cidade. Sem nunca ter causado acidentes, ele já foi vítima do trânsito. Quando precisa subir no passeio público para deixar as cartas, utiliza as rampas de acesso e trafega sempre na segunda marcha. ''Nunca ultrapasso 20 quilômetros por hora'', assinala o carteiro.

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