Peça de teatro mostra os males do cigarro às crianças
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de novembro de 1997
Adriana De Cunto Londrina 
Dorico da SilvaCombate ao tabagismoUniversitários se transformam em Lobo Fumão, Vovozinha e Chapeuzinho Vermelho: cruzada contra o fumo Na tentativa de conscientizar as crianças sobre os malefícios do cigarro, um grupo de estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL) mudou a história do Chapeuzinho Vermelho. Agora, o Lobo Fumão assedia a menina para tentar convencê-la sobre as vantagens do tabagismo. A adaptação foi mostrada em três escolas municipais da zona sul da Cidade e faz parte do projeto interdisciplinar A Escola Como Espaço Para Prevenção do Tabagismo Através de Ações Interdisciplinares - Relato de Experiência. A iniciativa é do Departamento de Enfermagem da UEL, com participação dos departamentos de Educação Física e Educação.
A coordenadora do projeto, a professora do curso de Enfermagem Inês Gimenes Rodrigues, diz que a idéia é combater o fumo desde a infância. Ela conta que a idéia surgiu depois que o Ministério da Saúde revelou números surpreendentes: três milhões de adolescentes brasileiros fumam, sendo que muitos começam a fumar antes de completar 5 anos.
Mara Solange Gomes, docente do curso de Enfermagem, que também participa do projeto, acredita que as crianças têm contato cedo por três motivos principais: curiosidade, fácil acesso ao cigarro e o fato de que muitos pais fumam. Além disso, ela observa que as propagandas desse produto são geralmente muito atraentes, mostrando pessoas bonitas, saudáveis e bem-sucedidas.
Nem todos os alunos das escolas são alvo do projeto da UEL. A coordenadora explica que os trabalhos estão sendo direcionados para as crianças de 3ª e 4ª série do 1º grau, com faixa etária próxima aos 10 anos - idade em que geralmente os menores tornam-se dependentes do fumo.
Como a atividade conta com o patrocínio do Prouni-Ld (Uma Nova Iniciativa na Educação dos Profissionais de Saúde), os bairros atingidos são restritos à zona sul de Londrina, uma das regiões mais carentes da Cidade. Três escolas foram selecionadas para a primeira fase: Carlos Costa Branco, no jardim Piza, Joaquim Vicente, no conjunto Cafezal 4, e o Centro de Atendimento Integrado à Criança (Caic) do jardim União da Vitória.
Inês Rodrigues explica que os trabalhos começaram no primeiro semestre. Seis estagiários - quatro estudantes do curso de Enfermagem e dois do curso de Educação Física - receberam informações sobre o cigarro (composição química, riscos do fumo, etc.). Depois, no segundo semestre, estagiários e docentes foram até as escolas para identificar as impressões das crianças sobre o cigarro.
Mara Gomes explica que a maioria dos alunos municipais pesquisados relacionaram o tabagismo a doenças. No Caic, os estudantes acabaram relacionando o cigarro a outras drogas, como maconha, cocaína e heroína.
Na etapa seguinte, cerca de 100 professores das três escolas passaram por um curso de oito horas sobre tabagismo. Tudo que foi visto no treinamento voltou para a sala de aula, já que os professores aproveitaram as informações e o material produzido - cartazes, folders, textos - para desenvolver conteúdos de matemática, língua portuguesa, redação, entre outros.
Mas o momento mais esperado pelas crianças é a dramatização da peça Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Fumão, adaptada e encenada pelos estagiários da UEL. A peça demora cerca de 40 minutos. As crianças assistem ao Lobo Mau tentando convencer Chapeuzinho de que o cigarro é bom e não faz mal. Só que por outro lado, eles vêem a Vovozinha doente porque fumou muito. No final da história, não só a Vovozinha se livra do vício e se transforma numa idosa muito bonita e alegre, como até o Lobo Fumão é convencido a largar o cigarro. Moral da história: quem fuma pode parar.
Quase duas mil crianças já assistiram à dramatização. No ano que vem, novas escolas municipais da zona sul serão incluídas. A coordenadora não pretende levar o projeto para outras regiões de Londrina, lembrando que o Prouni se restringe à zona sul. As três unidades que já assistiram a peça terão outras atividades em 98, lembra Inês Rodrigues. Entre elas estão vários jogos informativos sobre tabagismo, também desenvolvidos pelos acadêmicos.
Para conscientizar as crianças sobre as consequências do cigarro, a equipe da UEL usa o teatro. Mas, para atingir os adultos, as professoras são mais diretas. Elas lembram que o fumo, ao contrário de outras drogas, é socialmente aceito porque prejudica as pessoas a longo prazo. Incluído aí o fumante passivo. Depois de 20, 30 anos que começou a fumar aparecem os problemas, alerta a professora.
Ela avisa que 90% dos cânceres de pulmão são causados pelo cigarro. O fumo também é a principal causa de câncer no esôfago, laringe e boca. A professora lembra ainda que o cigarro contribui para o aparecimento de câncer na bexiga, pâncreas e rins.
Para sensibilizar os fumantes convictos, Inês Rodrigues mostra outros números: 85% das mortes provocadas por doenças pulmonares (como bronquite e enfisema) estão relacionadas ao hábito de fumar. Assim como 25% das mortes por doenças coronarianas (enfarte) e 25% das mortes por derrame cerebral. O cigarro é uma droga que mata lentamente.


