Peão processado por torturar vaca
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de dezembro de 2008
Omar Godoy<br>Equipe da Folha 
Um vídeo com cenas de crueldade contra uma vaca vem causando comoção popular em Curitiba. Desde ontem, quando as imagens foram mostradas em um programa policial de tevê, centenas de pessoas revoltadas não param de ligar para a emissora e a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA). Elas pedem uma punição severa ao instalador de carpetes Lori Rodrigues, 50 anos, principal responsável pelas agressões ao animal.
A história começa no dia de 30 novembro, um domingo, em meio às provas de um rodeio crioulo realizado numa chácara do município de Mandirituba (Região Metropolitana de Curitiba). Por volta das 14h30, três vacas fugiram do local e uma delas invandiu um pesque-pague das redondezas, avançando nos frequentadores.
Avisados pela dona do parque, os participantes do rodeio acionaram Rodrigues, conhecido por sua habilidade na lida com animais indóceis. O peão largou o almoço e partiu, a cavalo, para o pesque-pague, onde encontrou dificuldades para capturar a vaca. Começou, então, a maltratar o animal, que desmaiou e foi arrastado até a chácara.
Rodrigues percebeu que estava sendo filmado, mas não se deu conta das possíveis consequências de sua brutalidade. O vídeo, gravado por um frequentador do parque, começa com a vaca já deitada no chão, ''empacada''. Um de seus chifres está quebrado, e ela recebe chutes de homens vestidos com trajes gaúchos. O instalador de carpetes é o que mais agride o animal, que chega a sangrar.
Uma cópia do flagrante foi entregue à produção do programa de tevê, que registrou um boletim de ocorrência na DPMA dias antes de a matéria ir ao ar. A equipe do delegado Olavo Romanus iniciou uma investigação e ouviu Rodrigues e o outro agressor. Ambos responderão a um processo por crime ambiental e podem pegar de 3 meses a 1 ano de prisão. No sistema de pena alternativa, estão sujeitos a prestar serviços comunitários e pagar uma multa de até R$ 3 mil.
Rodrigues também deve ser punido pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho do Paraná, que veio a público repudiar a atitude do peão. ''Nosso regulamento não permite que se maltrate os animais'', garante Toninho Ávila, presidente da Ordem dos Cavaleiros do Paraná. Ele conta que conhece o agressor e ficou surpreso com o ocorrido. ''É uma pessoa humilde e prestativa, que sempre se esmerou para trabalhar nos rodeios. Foi um ato impensado, talvez para impressionar quem estava filmando'', opina.
Mas e a vaca? Está viva? Onde foi parar? É o que a polícia e a Sociedade Protetora dos Animais de Curitiba (Spac) querem saber agora. ''Esse animal precisa receber um atendimento veterinário adequado'', alerta Soraya Simon, presidente da entidade (que já disponilizou o vídeo no YouTube).
Segundo o próprio Rodrigues, a vaca está numa fazenda em Porto Amazonas, onde foi alugada para o rodeio, e passa bem. Atordoado com a repercussão do caso, ele diz que jamais pisou numa delegacia e, por isso, não merece ser tratado como um marginal. ''Não vou negar que chutei o bicho. Mas foi de leve, para ele levantar''.
O peão ainda afirma que o chifre da vaca se quebrou quando o animal pulou um muro, na fuga da chácara. E alega que dois frequentadores do pesque-pague, bêbados e armados, o pressionaram para resolver a situação o mais rápido possível -daí seu comportamento alterado.
Para o delegado Olavo Romanus, da DPMA, o ocorrido serve de alerta para o que vem acontecendo nos rodeios. ''Eu mesmo gosto muito do rodeio crioulo. Mas deixei de ir justamente por causa desses excessos''.
Romanus também acredita que a comoção em torno do caso reflete um novo momento social. ''De um lado, os recursos tecnólogicos permitem que qualquer um grave um flagrante. Do outro, a imprensa e a população estão mais críticas. Agora existe um freio para quem comete esse tipo de crime'', conclui.


