PATRIMÔNIO PÉ-VERMELHO - 'Um mundo novo' esperava o colégio
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quarta-feira, 02 de março de 2016
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA
Véspera de aniversário do Colégio Mãe de Deus pela manhã: a aluna nº 1 ainda não recebeu a programação detalhada, mas tem uma resposta ao telefone: "Estarei lá!" O colégio completa 80 anos - hoje - e Maria Alice Brugin de Arruda Leite, com invejável disposição aos 88 anos, permanece o elo sentimental entre o início, 3 de março de 1936, e a atualidade. "O papai [Eugênio Brugin] era agente da Companhia de Terras e havia contado em casa que as freiras tinham chegado para abrir o colégio. Ali, no almoxarifado da companhia. Eu tinha loucura para estudar e quando chegou o dia, me matriculei sozinha", rememora Maria Alice.
A visão dos padres palotinos (alemães), que estabeleceram a paróquia de Londrina, em 3 de março de 1934, determinou a vinda das Irmãs de Maria de Schoenstatt, fundadoras do Colégio Mãe de Deus. Uma "escola elementar poderia evoluir para um colégio para moças com internato em poucos anos", aventara o delegado provincial dos palotinos no Paraná, Erasmo Raabe, em carta ao padre José Kentenich, palotino e iniciador da Obra Internacional de Schoenstatt, na Alemanha.
Londrina estava "se formando como um centro de colonização cosmopolita", enfatizou. Na resposta, Kentenich revela-se impressionado com a perspectiva: "Além do mais, alegro-me de coração que as irmãs possam ajudá-lo, no além-mar, na construção de um mundo novo".
Procedentes da Alemanha, 12 irmãs integram-se à Diocese de Jacarezinho, em julho de 1935, das quais cinco mudam-se para Londrina no primeiro bimestre de 1936: Norberta e Calixta, incumbidas de providências visando o educandário; Trudperta, Oswalda e Lúcia, que se dedicam à enfermagem no hospital da colonizadora; e Mariaregis Kessler e Almut Weingaertner, professoras.
Alugadas duas salas de madeira da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), onde o "Instituto Mãe de Deus" inicia as aulas em 3 de março de 1936, para 66 alunos, meninos e meninos, que aumentam para 110 em maio. As professoras, alemãs, embora tivessem estagiado em colégio de Jacarezinho, tinham dificuldades com o português, "dávamos aula não sei como, porque não entendíamos o que os alunos falavam, muito menos eles podiam compreender o que nós queríamos". Depoimento em livro sobre o colégio (*). Já pela memória de Maria Alice, elas lecionavam auxiliadas por uma intérprete, Malvina de Oliveira.
ÁREA CONSTRUíDA CRESCEU
Irmã Dioneia Lawand, diretora-geral do Colégio desde 1993 (também historiadora juntamente com Levino Bertan), relata que a procura pela escola apressou a necessidade de se construir o prédio próprio, em terreno que seria doado pela Companhia de Terras (12.075 m²). "Mas os pioneiros ainda não tinham dinheiro" e, frustradas as tentativas de obter empréstimos bancários, irmã Norberta soube "que o sr. Eugênio Brugin (pai de Maria Alice), passou a jogar na loteria, na esperança de acertar um bilhete e conseguir a soma".
Entretanto, o colégio era cliente da Editora e Papelaria João Haupt, de Curitiba, que se prontificou a fazer o empréstimo. Para tomá-lo, foi constituída uma sociedade civil (atualmente o Instituto Secular das Irmãs de Maria de Schoenstatt) e no dia 11 de fevereiro de 1938, houve o lançamento da pedra fundamental, um tijolo abençoado pelo padre José Kentenich, que irmã Almut trouxe da Alemanha.
Com 927,80 m², o prédio é inaugurado em 17 de julho de 1938 e o padre Kentenich o conhece em abril de 1947. Ente 1950 e a primeira década de 2000, a área construída do Colégio é ampliada 20 vezes, atingindo a 21,8 mil m².
(*) "A Pedagogia Schoenstattiana e o Colégio Mãe de Deus: contribuições para a educação brasileira" - Dioneia Lawand e Levino Bertan (Arte & Ciência Editora, 2008).