Marcos BorgesMário Bispo: um mês sem trabalharBELA VISTA DO PARAÍSO - Conhecido no final dos anos 70 como a Capital do Bóia-Fria, o distrito de Santa Margarida, em Bela Vista do Paraíso (25 quilômetros ao norte de Londrina), ainda é reduto de muitas famílias de trabalhadores volantes no Norte do Estado. Todo início de ano é fraco de trabalho mas este foi pior por causa da chuva.
Para o coordenador da Pastoral do Migrante - mantido pela Igreja Católica -, Nilson Bucalon, 48 anos, a crise social no município é repercussão das grandes propriedades de soja e trigo, que tomaram o lugar das lavouras de café e algodão. ‘‘Muitos trabalhadores foram buscar refúgio nas cidades grandes, mas como não tinham qualificação, estão morando na periferia e favelas’’.
A saída encontrada pelos trabalhadores mais jovens foi procurar emprego como doméstica ou servente de pedreiro nas cidades. ‘‘Cerca de 80% dos moradores vivem exclusivamente como bóias-frias. No município faltam cursos para qualificar o trabalhador rural’’, ressalta.
Bucalon explica que a Pastoral do Migrante procura incentivar o trabalhador a se especializar ou, pelo menos, se alfabetizar. ‘‘O desemprego deve se agravar nos próximos anos, pois até as grandes empresas agrícolas estão cobrando conhecimento dos bóias-frias’’, anuncia.
Contas atrasadas Sem trabalhar há um mês, Mário Bispo dos Santos, 57 anos, não sabe mais o que fazer. As contas de água e luz estão atrasadas e o último serviço que encontrou foi cortar mato numa plantação de soja. Na pequena casa cedida pela Igreja Católica, vive com a mulher e seis filho, que também estão desempregados. ‘‘Quando a gente encontra trabalho, é para um ou dois dias por semana, recebendo R$ 7,00 a diária’’.
Ele diz que só não passou mais necessidade porque a prefeitura e os Vicentinos - voluntários da Igreja Católica que atendem as famílias carentes - deram alimentos e roupas.
Aperfeiçoando Para a família de Edevanir Correia Farias, 22 anos, a situação é mais cômoda. Desde que entrou a entressafra, conseguiu um outro serviço: quebrar milho nas fazendas da Cargil. Os bóias-frias são escolhidos a dedo para trabalhar ali.
Enquanto aguardavam a vaga na Cargil, Farias conta que não passaram necessidade porque a família tem crédito com os comerciantes locais. ‘‘Agora precisamos trabalhar para pagar as contas’’. Para ele, o campo não dá mais futuro a ninguém. Para fugir dessa situação no futuro, está estudando contabilidade à noite e procurando emprego na cidade. ‘‘Hoje em dia o trabalhador rural é muito sacrificado e eu quero o melhor para mim e para a minha família’’. (A.S.)

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