Pastoral da Criança será homenageada
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quinta-feira, 29 de abril de 1999
Silvana Leão 
Um trabalho de formiguinha, que nasceu timidamente há 16 anos em Florestópolis (73 km ao norte de Londrina) e, pelos gigantescos resultados, ganhou o mundo. Assim poderiam ser definidas as ações desenvolvidas pela Pastoral da Criança, um organismo social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que será homenageada hoje à noite na Camâra de Vereadores de Londrina com a Comenda Ouro Verde. A iniciativa partiu do vereador Carlos Kita (PTB). É um título honorífico de primeira categoria em reconhecimento ao visível trabalho que a Pastoral realiza em Londrina e região.
Casos em que a vida foi resgatada com ações simples, como a introdução de hábitos de higiene e o uso de um eficiente complemento alimentar, são inúmeros dentro da Pastoral. Quase sempre, o trabalho dos líderes comunitários que atuam como voluntários surge em meio a uma realidade feita de tantas privações, que significa a única esperança de sobrevivência para centenas de crianças.
Daniele e Franciele são a prova disso. As gêmeas, hoje com quatro anos, nasceram prematuras, em uma família já com sete filhos e totalmente sem recursos. Seriam entregues a uma instituição filantrópica, até recuperarem as condições físicas para voltar para casa. A tia, Maria Rosário Teotônio, resolveu assumir as meninas, que com pouco mais de dois meses, chegaram a pesar 1,8 quilo cada uma. Aos seis meses, totalmente desnutridas, foram levadas pela tia até as líderes da Pastoral que atuam no Jardim Marabá (zona leste da cidade), onde moram.
Cheguei lá até com vergonha, de tão magrinhas que elas eram, lembra Maria do Rosário, que é chamada de mãe pelas garotas (a verdadeira mãe mora em São Jerônimo da Serra, 95 quilômetros ao sul de Cornélio Procópio). Aos 56 anos e viúva, Rosário mora em uma pequena casa sem acabamento com quatro filhos, quatro netos e as duas meninas. Vivem de uma renda de aproximadamente R$ 490,00, canalizada quase exclusivamente à compra de comida, e duas cestas básicas, recebidas em troca dos serviços prestados em uma entidade assistencial da Prefeitura. Desta receita, são retirados R$ 100,00 para o pagamento da casa, adquirida por R$ 5 mil de um parente.
Até 15 dias atrás, a família ocupava uma casinha de madeira em uma chácara, sem qualquer infra-estrutura. Hoje estão melhor instalados, mas a miséria ainda não os abandonou. Luz elétrica, por exemplo, é um luxo a que dificilmente têm direito. Não fosse o farelo (multimistura) fornecido pelo pessoal da Pastoral, acho que as nenês (como ela ainda se refere a Daniele e Franciele) não teriam aguentado, afirma Rosário, explicando que a dieta da família quase nunca inclui carne e legumes.
Ela lembra que nos primeiros meses de vida das meninas, quando os médicos receitaram sulfato ferroso para tentar controlar a anemia profunda, as garotas foram vítimas de constantes diarréias e feridas pelo corpo, que Rosário atribui a uma possível alergia pelo medicamento. A multimistura, segundo ela, foi o que mudou este quadro. Percebendo que o pó fornecido pela equipe de voluntários era capaz de dar a força necessária às crianças, jamais deixou de incluí-lo na alimentação. Para isso, usa a imaginação. Quando elas enjoam no leite, eu faço bolinho, conta.
O garoto Luís Adriano da Silva, de dois anos, também enfrentou um grave quadro de desnutrição nos primeiros meses de vida e teve a saúde ameaçada pelas constantes infecções e por um começo de pneumonia. A mãe, Adriana Vieira da Silva, de 21 anos, foi procurada pelo grupo da Pastoral da Criança que atua no Conjunto Farid Libos (zona norte) quando o garoto tinha oito meses. Nesta época ele pesava apenas sete quilos e, até então, quase não ganhava peso.
Adriana não sabe explicar exatamente por que seu bebê ficou desnutrido, já que é filho único e o que o marido ganha (cerca de R$ 500,00) é o suficiente para não faltar comida em casa. Ela lembra, porém, que adquiriu uma infecção hospitalar durante o parto e só pôde amamentar durante três dias.
Hoje Luís Adriano pesa 12,3 quilos e está dentro da média preconizada pela tabela de crescimento utilizada pelo Ministério da Saúde. A mãe tem consciência que a inclusão da multimistura na dieta do garoto, e todo o acompanhamento feito pela Pastoral, foi fundamental para a recuperação do filho. E ao contrário de mães que subestimam o composto alimentar, ela lembra que nunca deixou o pó estragar em casa. O Adriano come até puro, revela.


