Pastora negra vence a discriminação
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de abril de 1997
Luka Morais 
Dorico da SilvaEstrela solitáriaA pastora Rosa Maria Valadão: Discriminação é camuflada, mas existe até nos segmentos religiososEla celebra casamentos, atos fúnebres e dirige cultos. É a primeira e única, no Brasil, a ocupar o cargo de pastora titular da Igreja Batista Independente. Há uma década, Rosa Maria Valadão, 49 anos, está à frente da igreja. Nos primeiros quatro anos, atuou como auxiliar e há seis é titular. Em Londrina, onde está há dois anos, é responsável por um rebanho de mais de 100 fiéis. A gente enfrenta restrições por estar liderando homens, comenta. Negra, conta que já sofreu discriminação racial. É camuflada, mas existe em todos os lugares, até nos segmentos religiosos.
De família pobre, católica, Rosa nasceu na cidade de Rio Grande (RS). Era a terceira de sete filhos. Costumava frequentar missas, na época celebradas em latim. Não entendia nada mas tinha um sentimento religioso, lembra. Aos 13 anos, aceitou o convite feito por uma amiga para ir ao culto na Igreja Batista. Tive um impacto pela forma como fui recebida. Fui atraída pelo calor humano, recorda.
A boa acolhida, uma norma entre as igrejas evangélicas, cativou a adolescente negra e pobre, que se sentia rejeitada por Deus. Antes eu tinha uma idéia de que Deus não era real, não existia, não era bom. Eu me sentia discriminada. Aos 15 anos, Rosa sentiu a chamada divina, a necessidade de levar o Evangelho aos demais. Precisava mostrar às pessoas essa nova visão de Deus, que transforma o interior das pessoas.
A jovem passou a frequentar congressos, acampamentos e outras atividades religiosas. Teve paqueras, mas sempre deu prioridade à missão de evangelizar. Foram quatro anos de estudos para ter o título de bacharel em educação religiosa, complementados com experiências em viagens ao exterior, denominadas missões transculturais. Depois de passar 10 anos na retaguarda das igrejas e do trabalho de auxiliar de pastor, ajudando nos cultos e fazendo conferências, ela aceitou a proposta de se tornar uma consagrada. É um compromisso para toda a vida.
Sempre alegre e sorridente, a única mulher a participar do Conselho dos Pastores de Londrina tem a agenda cheia. Acorda diariamente às 7 horas e dedica os 60 minutos seguintes à leitura da Bíblia e à oração. Duas vezes por semana passa a manhã no gabinete pastoral, onde atende os fiéis com hora marcada. As tardes são específicas para visitas às ovelhas necessitadas de oração e aconselhamento. Três noites da semana são dedicadas aos cultos, que se repetem nas manhãs e noites do domingo. Vivo em função da igreja, resume a pastora gaúcha.
No último final de semana, Rosa trabalhou na organização de um congresso brasileiro que reuniu mais de 1.500 batistas em um colégio de Londrina. Saía de casa às 6 da manhã e só retornava no final da noite. Não repare na minha casa, pediu. O apartamento simples no quarto andar de um condomínio na Vila Nova, alugado pela igreja, é cuidado pela pastora. Ela faz a limpeza toda segunda-feira, dia de folga das atividades da igreja. Também tenho uma diarista uma vez por semana, diz. Ainda no dia de folga, a pastora faz curso de inglês.
Com tanta atividade, Rosa Valadão acredita que encontraria tempo para namorar e até se casar. Não tenho nenhuma restrição. Só não casei ainda porque está escasso, brinca. Mas marido de pastora precisa ter certos requisitos. Ele vai ter que se sentar e ouvi a mulher na igreja. Para os machistas isso é muita coisa, diz. Tem que inverter a posição.
Rosa Valadão observa que as esposas de pastores se queixam do tempo curto dedicado à família. Mas ela acredita que, como nas demais profissões, o trabalho de pastora pode ser conciliado com a vida familiar. Só não penso em filhos por causa da idade.
Acordar nas madrugadas para atender os filhos não é coisa rara na vida de Rosa. Por telefone mesmo, ela ouve, aconselha e faz orações. Acredita que, por ser mulher, as fiéis se sentem mais à vontade para contar os problemas pessoais e relacionados ao casamento.
Como o ser humano precisa de ajuda espiritual!, surpreende-se ela. A pastora diz que vai continuar à frente da igreja, localizada na Vila Recreio, enquanto tiver fôlego e disposição. Ela foi convidada para o cargo, que deverá ocupar por tempo indeterminado. Nos planos de Rosa que, em dois anos de trabalho, conseguiu ampliar o rebanho de 60 para mais de 100 ovelhas, existe a meta: Conduzir Londrina, dentro dos meus limites, à experiência de uma nova visão de Deus, para termos uma cidade melhor.


