Pastor relata vida no crime
Paulo Ubiratan
De Londrina
Londrina e toda região norte do Paraná devem se precaver contra a invasão do Comando Vermelho (CV). As características, tanto geográfica, econômica e política são propícias para o CV estender um de seus braços até aqui. O alerta foi feito por Alex Sander Macedo, 26 anos, que por mais de 14 anos fez parte desta organização criminosa, espalhada nas principais cidades do Brasil. Atualmente, Alex é pastor da Igreja Congregacional do Brasil, com sede no Rio de Janeiro.
O pastor está em Londrina dando palestras sobre sua vida e a sua recuperação. Ele disse que há três anos comentou com londrinenses e moradores de outras cidades da região para que abrissem os olhos para a invasão do Comando Vermelho. Se um dos pertencentes do grupo passar por aqui, vai dizer que esta cidade é uma mina de ouro para o tráfico de drogas e o crime organizado, pois além de ser um pólo de serviços é uma boa rota de drogas por fazer fronteira com São Paulo e Mato Grosso do Sul.
O pastor afirmou que uma maiores fontes de informações do Comando Vermelho são os presos vindos de penitenciárias de outra cidades e Estados. É comum entre as justiças estaduais fazer trocas de presos e criar uma perfeita interação entre os presos de todo o Brasil. Até o mês passado, a Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) abrigava presos de outros estados. Ele alerta que o integrante do CV não chega na cidade com cara de mau, mostrando arma e matando todo mundo.
Segundo o pastor, o comando normalmente invade as cidades juntando-se a políticos, pessoas influentes e até com a polícia. E quando adquirem uma determinada influência chegam até a patrocinar movimentos sociais comunitários, usando do assistencialismo e do clientelismo, diz ele.
Alex chama atenção para o tráfico de drogas que o Comando Vermelho organiza com dinheiro de empresários bem sucedidos nas cidades. O negócio é conhecido como consórcio da droga. Este tráfico é feito pelo matuto (membro do Comando Vermelho) que encarregava-se de reunir um determinado valor em dinheiro para comprar drogas nunca menos do que R$ 50 mil junto às pessoas ricas da cidade. O matuto fica de elo de ligação junto ao Comando Vermelho e os sócios. Depois encarrega-se da divisão dos lucros alcançados pelas vendas do tóxico.
Diante deste universo de comprometimentos, Alex conclui que somente com a união de forças da sociedade organizada será possível fazer frente ao Comando Vermelho. Para ele, a polícia é uma instituição apática, obsoleta e nem a sociedade, nem os políticos possuem efetiva vontade de modificá-la em suas estruturas. Reparem o que está acontecendo com a CPI do narcotráfico onde existe disparidades de pensamento, inclusive, até má vontade de alguns corporativistas senadores e deputados. O combate ao crime somente será efetivo quando houver a conscientização de toda a sociedade, pois não adianta se esconder de bandidos atrás de muros e deixá-los fazendo o que quiserem pelas ruas.
Alex conta com certa tristeza que começou ostensivamente no crime com 14 anos, quando organizou o primeiro arrastão nas praias do Rio de Janeiro, chegando a comandar mais de 150 adolescentes. As maiores vítimas dos arrastões eram os estrangeiros. O pastor afirma que o processo de criminalidade no Brasil não é social, mas político.
Uma pessoa normal não entra no crime exclusivamente pela fome e por ser excluído. A pessoa começa a delinquir por revolta a impunidade das classe privilegiadas e o desmando dos políticos e governantes. Tomo como exemplo o meu caso. Eu praticava crime com revolta ao ver nos noticiários de televisão verdeiras barbaridades de roubos com dinheiro público principalmente na era Collor e ninguém ir para a cadeia.
Ele queria ser jogador de futebol. Alex conta que seu pai trabalhava para bicheiros e pouco aparecia em casa. Sua mãe era muito sacrificada e não suportava vê-la sofrer. Minha mãe queria se livrar de meu pai e tentou trabalhar mas não conseguia emprego. Prometi para mim mesmo que tiraria minha mãe daquela situação. Comecei logo no tráfico de drogas e cheguei conhecer José Carlos Ensina, o Escadinha e outros chefes do Comando Vermelho. Disse que nesta época ganhou muito dinheiro e muito poder.
O pastor conta que foi convertido através de uma mulher (pediu para o nome não ser revelado) na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, quando ia trocar tiros com a polícia. Ele revelou que já havia tentado suicídio duas vezes e naquele dia ia se expor aos tiros porque queria ser morto. A mulher apareceu em sua frente e, falando de Deus, conseguiu tirar-lhe a pistola que levava na mão. Ela foi tão corajosa e suas palavras foram tão fortes que eu parei e comecei a pensar. Depois de três dias eu fui até o templo e nunca mais me afastei de Deus. Alex é casado e tem três filhos e percorre o Brasil transmitindo a mensagem de que todo o ser humano é recuperável.
Apesar do Comando Vermelho ter como ditado pague para entrar e reze para sair, Alex disse que não teve problema para deixar a organização. Segundo ele, o comando somente não admite quando alguém sai para fundar um grupo concorrente.





