Simone Giroto‘A Mão Cooperadora’Pastor Freire com parte dos jovens atendidos pelo programaHá cinco anos, o pastor Lúcio Freire, da Igreja de Deus, teve sua casa arrombada em Campo Mourão. Ele só não poderia imaginar que aquele roubo iria mudar a sua vida na cidade. A mudança começou na hora de registrar a ocorrência na delegacia. Freire descobriu que os arrombadores eram três crianças e pelo menos uma delas, o ‘‘Lambari’’, tinha menos de 10 anos.
‘‘Aquilo nos despertou para que fizéssemos alguma coisa’’, recorda o pastor. Imediatamente, ele começou a manter contato com os menores na rua e, pouco tempo depois, eles já estavam sendo atendidos pelo programa ‘‘A Mão Cooperadora’’. ‘‘Começamos improvisados numa sala ao lado da igreja’’, frisa o pastor. Lambari, agora com 14 anos, continua no abrigo.
Hoje, o programa atende 15 jovens e tem capacidade para 20 numa sede inaugurada no final do ano passado. A construção foi feita com recursos da igreja, da comunidade e de órgãos públicos. ‘‘Não foi nada fácil’’, conta Freire. Uma semana antes da inauguração, por exemplo, um dos menores colocou fogo num dos quartos do abrigo.
A maioria dos jovens atendidos tem família em Campo Mourão, mas vivia mais na rua do que com os pais. Todos têm problema de conduta social e, antes de chegar à ‘‘Mão Cooperadora’’, já tinham participado de arrombamentos a residência, eram viciados em cola de sapateiro e estavam fora da escola. ‘‘Eles sofriam com a falta de afeto e a rejeição da sociedade’’, diz Freire.
Através do programa, os menores estudam , fazem cursos profissionalizantes e até conseguem trabalho. Freire ajuda financiando a compra de bicicletas, de roupas e de calçados. ‘‘Eles também gostam de usar tênis de marcas famosas e caras’’, ressalta o pastor. ‘‘Já tive muito prejuízo por causa disso, mas é preciso incentivá-los’’.
Freire destaca o caso do menor que teve sua bicicleta roubada há poucos dias, quando nem tinha terminado de pagá-la. ‘‘Ele ficou arrasado e aproveitei para fazê-lo ver o tanto que é ruim ser roubado’’, diz o pastor. ‘‘Se forem roubar de mim tudo que já roubei dos outros, nunca vou ter nada’’, respondeu o menino de apenas 14 anos.
Segundo o pastor, no entanto, o maior problema dos menores é a disciplina. ‘‘A resistência ao cumprimento de ordens e de horário é muito grande’’, revela. Por isso, é comum o abandono inicial do programa. ‘‘Mas logo eles vêem que alguém da sociedade está se interessando por eles e acabam voltando’’, explica Freire. O pastor só se queixa do preconceito social.

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